DJ fala sobre o projeto Forrúmbia, que une forró e cúmbia em Berlim

Evento organizado pela Tropical Diaspora deve virar disco em breve

Experiência junta ritmos latino-americanos em um só palcoEm uma das cidades mais multiculturais do planeta, experimentou-se uma mistura musical inédita: a forrumbia. A mescla ocorreu naturalmente em uma das festas organizadas pelo Tropical Diaspora, na capital alemã.

Como em São Paulo dos anos 90, na Europa hoje existe um grande movimento de forró nas universidades. 

A experiência juntou a banda Maragandá, formada por músicos brasileiros, com o grupo La Mula Santa, composto por chilenos, venezuelano, peruano, australiano e alemães.

O Moozyca foi conferir a ideia e entrevistou o DJ Garrincha, criador do projeto que ainda é um embrião, mas que em breve deve virar disco. “Um de meus objetivos com a Tropical Diáspora é exatamente sair do gueto de colônias x ou y e tentar juntar todos no intento de criar algo novo, por exemplo, com um de nossos eventos chamados Forrumbia - juntando dois ritmos latino-americanos em um só palco: o forró e a cumbia”, afirmou.

DJ Garrincha, criador da Tropical DiasporaComo surgiu o projeto Forrúmbia?

Começou de forma inusitada, quando vimos que, em Berlim, havia chegado um brasileiro com uma sanfona e que tocava forró. Logo se formou uma banda de forró na cidade, fazendo relativamente sucesso e atraindo centenas de pessoas para suas festas. E preciso ressaltar que nos últimos anos o forró vem conquistando cada vez mais adeptos em várias capitais europeias, com festas e cursos para aprender forró com dançarinos vindos do Brasil. Como em São Paulo dos anos 90, na Europa hoje existe um grande movimento de forró nas universidades. 

Como o evento Tropical Diaspora tem como missão juntar várias tribos musicais, não realizamos somente um tipo de concerto todos os meses. Tentamos diversificar as bandas e apresentar ao público a diversidade das diásporas musicais instaladas em Berlim. Assim sendo, o Forró entrou em uma edição especial de Festa Junina da Tropical Diaspora na venue YAAM, onde realizamos todos os eventos.

E como foi o primeiro show de Forrumbia?

Depois de tudo organizado para este show, um dia antes me liga o líder da banda e me diz que o sanfoneiro não poderia estar no concerto e a solução seria trazer um rabequeiro de Recife, que estava fazendo um intercâmbio em uma universidade em Rostock, a 250 km de Berlim. Assim realizamos o primeiro concerto com uma banda de forró em Berlim e usando uma rabeca, surpreendendo o público berlinense com algo novo. (veja vídeo abaixo).

A repercussão deste evento foi tão grande que até o final do ano realizamos vários eventos da Tropical Diasporas com a banda Forró Maragandá, assim batizada depois do primeiro show, já que necessitava um nome oficial para fazer a promoção do evento na cidade.

Aproveitando a grande repercussão, tive a ideia de realizar um evento especial de verão, juntando duas bandas com quem trabalho há muito tempo em Berlim. Uma delas era naturalmente a banda de forró. A outra era a La Mula Santa, banda latina mais conhecida e experiente, composta por venezuelano, peruano, chilenos, australiano e alemães.

Onde foi realizada a festa?

Foi realizada em uma venue que não o YAAM, chamada BiNuu,  uma das mais conhecidas da cidade de Berlim, embaixo de uma estação de metrô no bairro de Kreuzberg. O evento foi um sucesso, tivemos a casa lotada a noite toda com um público diversificado, com brasileiros, ibero-americanos, alemães, e muitas outras nacionalidades, típico da cidade de Berlim.

No palco, tivemos as duas bandas, Forró Maragandá com sanfona e rabeca dividindo o set em duas partes respectivamente e a La Mula Santa fechando o show com after 100% vinil, comandada por mim no forró e som brazuca e o colombiano DJ Bongo, responsável pela cúmbia nas pickups.

Assista ao vídeo com a ideia da Forrúmbia segundo os próprios músicos: 

Foi algo natural então?

A Forrúmbia surgiu naturalmente por meio do trabalho na Tropical Diaspora, tentando juntar ritmos e estilos diferentes de musica em um só evento.

Arte de divulgação da festa Forrúmbia, em BerlimO que é o Forrúmbia? Pode-se dizer que é um gênero musical?

A Forrúmbia é a mistura de dois ritmos dançantes latino-americanos muito populares, o forró e a cumbia. Como a fusão dos dois ritmos ainda não aconteceu em estúdio ou de forma estruturada musicalmente, não podemos chamar ainda a Forrúmbia de um gênero musical. Ou seja, o projeto Forrúmbia está no inicio, mas tem potencial para se tornar algo novo como gênero sim.

Você disse antes que o mais difícil é colocar latinos lusitanos e ibéricos juntos. Por quê?

O Brasil, como um continente, é riquíssimo musicalmente, deixando os artistas na maioria das vezes concentrados em seu estilo musical. Os ibero-americanos, por sua vez, em países menores se especializam em seus ritmos, como, por exemplo, a cúmbia, que é conhecida como algo colombiano na maioria das vezes, mas que na verdade é tocada em todo o continente em variações de acordo com o país. Por exemplo, o Peru com a Chicha ou a cúmbia chilombiana, feita no Chile. A distância e tais especializações dificultam o intercâmbio na minha opinião no próprio continente latino-americano.

Estando em Berlim, essas barreiras físicas e conceituais continuam existindo somente na cabeça dos músicos. Ou seja, aqui cada um continua fazendo o que sempre fez em seu país de origem. Portanto, meu trabalho é feito em dois campos de batalha: como Dj foi misturar estes estilos nos discos nas festas, colecionando e estudando a musica ibero-americana na América Latina; e como produtor de passar essa ideia aos músicos, realizando um evento do tipo e colocando as duas bandas no mesmo palco.

O projeto vai virar disco?

Sim, este será o próximo passo. Estamos em estúdio gravando as músicas para o disco que será lançado ainda neste ano pelo selo Tropical Diaspora Records.

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