“O principal elemento no meu trabalho é o ritmo”, afirma Arrigo Barnabé

Artista fala sobre modo de compor, cena musical, parcerias e influências

Sempre gostei muito do Béla BartókNum dia desses, andando por uma rua do bairro de Pinheiros, em São Paulo, encontro com uma das figuras mais expressivas da música contemporânea brasileira. O rosto que me chamou a atenção era do compositor, arranjador, músico e intérprete, Arrigo Barnabé. Na correria, chamei o seu nome e ele me passou brevemente o seu contato. Por sorte, conseguimos, depois de algum tempo, realizar uma entrevista para o Moozyca, que pode ser conferida a seguir.

Conhecido pela sua rítmica bem elabora [e um visual que vai de Beethoven à imagem ácida de um artista de punk jazz], Arrigo Barnabé ficou conhecido como um dos principais atores da Vanguarda Paulista, que movimentou a capital entre o fim da década de 1970 e o meio de 1980, junto a Itamar Assumpção, Paulo Barnabé, Luiz Tatit e o Grupo Rumo, além do pessoal da banda Premeditando o Breque. Arrigo se destacou inicialmente pelo álbum Clara Crocodilo, lançado em 1980, que influenciou fortemente a música brasileira.

É certo que o rótulo [Vanguarda Paulista] foi criado por críticos e jornalistas e não revela com naturalidade a manifestação artística despropositada dos artistas da época, que nem sempre criavam de forma coesa e consensual. “Eu tinha contato com todos, mas os pensamentos eram diferentes, isso é bem visível”, afirma Barnabé.

​Acho que estamos em um momento de transição. Acho que existe uma cena experimental sim.​

Você é um compositor pouco convencional no Brasil, que parece unir um conceito mais abrangente de polifonia, dodecafonia, música serial e também música popular. Como você dosa esses elementos numa composição?

​Praticamente tudo que componho é escrito, pensado como partitura. Conheci o dodecafonismo através de um livro "Que és el dodecafonismo", de Herbert Eimert​, em 1977. A descoberta de um sistema de composição, de uma ferramenta que facilita a coerência e unidade, me ajudou muito. Mas o principal elemento no meu trabalho é o ritmo, acho que ele é o motor, vide as composições anteriores a 1977: "Sabor de Veneno", "Outros sons" e "Clara Crocodilo". Acho que o ritmo é que garante a espontaneidade do trabalho.

Confira a música “Sabor de Veneno”, no programa Fábrica do Som da TV Cultura, em 1980.

Como você compõe? Poderia descrever o seu processo criativo, de forma geral?

​Não existe um processo único. Às vezes trabalho com linhas melódicas, mas na maior parte das vezes começo com ideias rítmicas.​

Você enxerga uma diferença grande entre popular e erudito?

Existe uma diferença sim. A música erudita é mais elaborada. A musica popular é mais espontânea e é basicamente a canção, então é litero-musical. A parte literária dessas canções é muito elaborada. Tanto Augusto de Campos, quanto João Cabral - mesmo Carlos Drummond - colocam essas "letras" no mesmo nível da poesia que produzem.

O que você acha da cena musical brasileira no momento?

​Acho que estamos em um momento de transição. Acho que existe uma cena experimental sim.​

Ouça e veja a música “Acapulco Drive In” do show Tubarões Voadores, gravado pela TV Cultura no Sesc Pompéia, em 1985.

Quais eram as suas influências em 1980? E quais as influências hoje?

Sempre gostei muito do Béla Bartók. Além disso, a cena da música popular brasileira na época dos festivais, as experiências de fusão entre a música popular e a música erudita contemporânea brasileira - Julio Medalha, Rogério Duprat, Damiano Cozzella, entre outros -, o rock e o jazz no final dos anos 60 e começo dos 70, a música indiana em seu aspecto rítmico.

Esses dias tenho ouvido uma peça do Miki Minoru, compositor japonês contemporâneo: "Paraphrasis after japanese ancient music​". Conheci essa peça em 1970, há muito tempo não ouvia. 

Tenho feito bastante letras de música, talvez fruto do trabalho interpretando Lupicínio.​

Como foi participar da Vanguarda Paulista, junto a artistas como Itamar Assumpção?

Não sinto dessa forma, isso não foi pensado assim. Eu, o Itamar e o meu irmão Paulo (Patife Band)​ moramos juntos, convivemos muito. Por outro lado, eu estudava na ECA USP e lá estavam o Luiz Tatit e muitos integrantes do Grupo Rumo, e quase todo o Premeditando o Breque. Então eu tinha contato com todos, mas os pensamentos eram diferentes, isso é bem visível.

Quais atividades exerce no momento e que mais se dedica?

Tenho trabalhado bastante como intérprete, estou fazendo há seis anos um trabalho com as canções do Lupicínio Rodrigues​, adoro fazer isso. Estou começando a trabalhar como diretor artístico no show da Letícia Sabatella, "Caravana Tonteria". E tenho feito bastante letras de música, talvez fruto do trabalho interpretando Lupicínio. Sinto que estou dando uma derivada...

Quais foram seus últimos trabalhos?

​Essa Missa [Missa In Memoriam Itamar Assumpção] foi composta em 2004 e gravada em 2005. Em 2007, escrevi "Metamorfose" para a "Orquestra Brasileira a base de sopros" de Curitiba. Isso foi lançado em DVD em 2009.

Em 2008, escrevi duas peças para o grupo de percussão português Drumming: "Caixa da Música" e "Out of Cage"​. Foram apresentadas em Porto (Portugal), no Teatro Nacional São João, com direção cênica de Ricardo Pais.

Em 2013, fiz um trabalho em parceria com Luiz Tatit (eu fazendo a música e ele as letras). Foi gravado no cd "De nada mais a algo além", tendo a Lívia Nestrovski como principal interprete. Em 2014, gravei "Claras e Crocodilos", uma releitura que fiz do material original, com uma banda que integra músicos da "antiga" - Paulo Braga e Mario Manga - e as novíssimas instrumentistas Ana Karina Sebastião, Joana Queiros, Mariá Portuga e Maria Beraldo Bastos Recentemente, a Karin Fernandes acabou de gravar uma sonata para piano. Devo ter feito mais coisas que estou esquecendo...

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