‘É mais barato produzir, então se produz muito’

Bruno Serroni fala sobre o seu álbum independente, trajetória e a cena musical

Recém-saído do forno, o novo álbum pode ser baixado no site do artista e comprado em CD ou vinil (LP 12”)

Entre trilhas sonoras, contratadas para campanhas publicitárias, Bruno Serroni sempre encontra um tempinho para experimentar musicalmente. É no estúdio de sua produtora, a nanuk.la, que ficam seus instrumentos, onde extravasa na bateria e estuda violoncelo e piano. E foi desse espaço de criação que ele tirou algumas das inspirações para o seu primeiro álbum autoral, chamado “Dentre Nós”.

“Esse estúdio onde temos que fazer, muitas vezes, ‘música pra ontem’ é o mesmo onde, quando sobra um tempo livre, experimento com calma meus instrumentos. Foi a forma que encontrei de viver fazendo música”, explica Serroni.

Recém-saído do forno, o novo álbum pode ser baixado no site do artista e pode ser comprado em CD ou vinil (LP 12”). O trabalho contou com uma banda formada por nomes como Guri Assis Brasil, na guitarra, Carlinhos Mazzoni, na bateria, e Hurso Ambrifi, no baixo, além da participação das cantoras Laura Lavieri, Juliana Kehl, Blubell e Vanessa Krongold. A mixagem foi feita por Sérgio Sofiatti, da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana (OBMJ).

Do romântico pro visceral é um pulo. Basta viver e estar aberto pra ser atravessado por esses sentimentos.

A seguir, Bruno Serroni conta ao Moozyca como foi o processo de produção do álbum, além de falar sobre a sua trajetória e a sua percepção sobre a cena musical brasileira.

MZ: As letras do álbum parecem ter uma poética ora romântica ora mais visceral, entremeando sentimentos e sinestesias. Como foi o processo de composição de “Dentre Nós”?

BS: O processo aconteceu vivendo tudo isso. Coisas que vi, coisas que senti, coisas que eu precisava tirar de mim, tudo se transformou em música. Claro, acredito que do romântico pro visceral é um pulo. Basta viver e estar aberto pra ser atravessado por esses sentimentos. De qualquer forma, vale a pena dizer que dei uma atenção especial pra essas letras, pois sempre amei escrever com requintes. E até pelas músicas em geral não terem um refrão chiclete, ou às vezes nem mesmo obedecer a essa norma de existir um refrão, acredito que elas traduzem de forma peculiar esses sentimentos e sinestesias.

MZ: Como foi a sua transição para a música popular, fazendo a ponte com o rock, o pop e o jazz?

BS: Eu me formei em comunicação social e, nesse período, quase parei de tocar. Eu já tocava e já tinha feito conservatório quando adolescente, justamente na música popular. Aprendi a tocar piano em conservatório quando criança, mas isso foi uma iniciação. Tocar de verdade foi ligar o baixo bem alto no amplificador e ensaiar com os amigos na garagem de casa. Minha escola nessa época foi o rock, posteriormente outros estilos, incluindo o jazz, fiz aulas de contrabaixo com o Célio Barros. O violoncelo e o erudito, apesar da minha paixão pelo estilo musical, vieram depois, inclusive da faculdade, quando me apaixonei pelo instrumento ao assistir a Osesp, apresentando o "Jobim Sinfônico" por volta de 2001.

Uma tendência que posso dizer que existe é a dessa descentralização. É mais barato produzir, então se produz muito. A dificuldade está mais na divulgação mesmo, em fechar shows que paguem os músicos como se deve e por aí vai.

MZ: Em “Dentre Nós” tem um samba chamado “Chorinho”, com cuíca, guitarra e uma bateria meio quebrada. Isso mostra um pouco da sua busca por misturas e experimentações?

BS: Mostra sim. Essa música é um bom exemplo de uma mistura que me diverte. Mas, ao mesmo tempo, essa impressão de "faltar um compasso" ou de algo torto na música tem tudo a ver com o personagem de quem "conto a história" na letra. Praticamente todas as músicas têm essas minúcias.

MZ: De onde veio a sua paixão pelo baixo, violoncelo e piano?

BS: Acho que, primeiramente, de uma paixão pela música mesmo. Meu ouvido escuta música ao vivo desde muito pequeno, pois tive a presença musical do meu avô e minha mãe principalmente, tocando piano, violão e flauta, sempre na minha frente. E assim como meu filho hoje faz isso comigo, de ficar pedindo pra tocar certas músicas infantis no piano, eu pedia pra minha mãe tocar. Mas ela tocava Polonaise de Chopin, tocava composições dela, era muito mais rebuscado. Não sei se vai gerar o mesmo efeito com meu filho (risos). O som sempre me cativou. E eu já gostava muito do baixo acústico por conta das aulas com o Célio Barros. O baixo, por sorte, um belo dia, meu irmão trouxe um emprestado de alguém, pra casa. Eu tinha uns 13 anos. E peguei aquilo na mão, meio escondido.

Pessoalmente amo encartes e capas de LP, acho uma delícia manusear e virar um disco de lado

MZ: Em seu site você já disponibiliza as suas músicas para download gratuitamente, mas também vende LPs. Essa é a tendência para músicos independentes?

BS: Acho difícil dizer qual seria a tendência, pois a transformação desse universo é intensa e constante. Tento me colocar no lugar de quem vai me ouvir. Vai ter quem só consiga baixar o disco digital. E vai ter quem seja entusiasta de LPs, como eu, e queira ouvir nesse formato. Eu pessoalmente amo encartes e capas de LP, acho uma delícia manusear e virar um disco de lado. Certamente, a minha opção foi bancar meu próprio disco, a muito custo, por amor mesmo. Ainda existem bandas e músicos que seguem com leis de incentivo e até gravadoras. Uma tendência que posso dizer que existe é a dessa descentralização. É mais barato produzir, então se produz muito. A dificuldade está mais na divulgação mesmo, em fechar shows que paguem os músicos como se deve e por aí vai. Considero o download gratuito uma "amostra grátis quase completa". Pois o áudio está todo lá, mas, pra quem deseja realmente apoiar o artista, basta comprar o disco físico. Não que muitos façam isso, mas é como eu imagino que seria ideal.

MZ: Como anda a cena de músicos no Brasil e quem são as suas maiores influências na atualidade?

BS: Vira e mexe alguém solta a pérola de que não se faz mais nada interessante hoje em dia, comparando com décadas passadas. Mas talvez isso seja uma frase puxada de forma errada de algum contexto. Além de muita coisa boa sendo produzida, têm músicos incríveis, jovens, que são de arregalar olhos e ouvidos. Sobre influências, são muitas, fica difícil citar nomes numa resposta curta, pois abrangem dezenas de estilos musicais. Pra não ficar em branco, posso citar um artista que eu estava ouvindo hoje que é o Leadbelly.

 

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