De cachorra à poderosa: o vestuário do funk na periferia do Rio

Pesquisadora Joyce Fagundes fala sobre a relação entre sexualidade e moda no funk

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Vincent Rosenblatt / Agencia Olhares

A periferia coleciona um vasto histórico de estigmas criados pelas classes média e alta. É aí que se convenciona o que é normal ouvir e vestir e como se deve amar ou fazer sexo. Essas convenções geralmente não vêm em manuais, mas sim em forma de novelas, programas de televisão, rádio, filmes, livros, seriados, etc. E não é preciso dizer que a maioria dos veículos de comunicação não representa a realidade das periferias, certo?

Ao se adotar uma forma de interpretação da realidade, opta-se pela exclusão de uma infinidade de outros mundos, o que acaba contribuindo para o reforço de estigmas e para a criação de preconceitos contra o “diferente”. Nesse sentido, o filósofo russo Mikhail Bakhtin escreveu: “O sentido da palavra é totalmente determinado por seu contexto. De fato, há tantas significações possíveis quanto contextos possíveis”.

E, nessa história, quem é o diferente? Quem é a “cachorra” do funk? Por que ela usa roupas tão “vulgares”? Será a sua roupa uma “arma para deixar os homens loucos”? (leia-se com ironia, please).

Para desmistificar parte do vestuário do funk, o Moozyca foi entrevistar a carioca Joyce Fagundes, mestra em  Memória Social, pela Unirio, modelo e envolvida no circuito da moda internacional. No momento, vive com um pé na Alemanha e outro no Brasil. Ao meio desse ping pong intercontinental, conseguimos fisgar da carioca argumentos bastante interessantes sobre o mundo do funk. Danke schön, Joyce!

Joyce Fagundes, pesquisadora e modeloFoi no mestrado em que Joyce iniciou o seu estudo sobre o vestuário do funk. Para ela, a roupa é uma extensão do indivíduo, relacionada a representações identitárias individuais e coletivas, o que forma um objeto de memória social. Ao longo da pesquisa, procurou identificar como foram construídas as representações da imagem da mulher de origem popular no funk e de que forma a roupa estava inserida nesse contexto. “A proposta da pesquisa visava a reflexão de uma estética periférica, que, por mais difundida que pareça fora do universo popular, se faz de maneira folclórica, associada a uma ideia fetichista e até mesmo jocosa”, explica a pesquisadora.

Leia abaixo a entrevista com Joyce Fagundes:

Moozyca: Qual a relação entre o funk e o vestuário das mulheres?

Joyce Fagundes: O uso do vestuário feminino no cenário funk está carregado de elementos simbólicos, tais como: atribuições de valores que levaram ao caráter de vulgar e às conotações eróticas no imaginário coletivo; uma estética que nasce nas ruas das comunidades e favelas, considerada como uma moda de subculturas, ou seja, que estão fora dos padrões estéticos dominantes no Rio de Janeiro. Pensar nas apropriações, no uso e nos diferentes valores atribuídos ao mesmo objeto, ou seja, a roupa, me levou à reflexão não somente do objeto como uma indumentária típica, mas da estética cultural que se constrói em torno desse objeto.

Poderia nos dar um exemplo dessa indumentária típica?

Um exemplo que utilizo para ilustrar esse pensamento é o uso da minissaia, figurada em vários cenários estéticos. O uso da minissaia foi inaugurado na década de 1960, cuja a autoria se disputa entre a estilista britânica Mary Quant e o estilista francês André Courrèges. Na época, a minissaia era símbolo da vanguarda e da emancipação feminina, projetada em Londres e disseminada pelo mundo.

“A ‘cachorra’, a princípio, não demonstra indignação ou sentimento de ofensa em relação às diferentes formas de tratamento (...), os estigmas e estereótipos acontecem quando essa dinâmica se exterioriza”.

Para a estilista, a invenção da minissaia surgiu nas ruas, do uso apropriado à necessidade de expansão corporal, pois a versatilidade da peça não se restringia a classes sociais nem faixa etária específica. Seu critério de aceitação é apenas pelo gosto estético. A intenção da estilista era deixar o corpo mais livre e até atraente. Embora fosse uma peça que influenciava o comportamento feminino, a minissaia se tornou um símbolo de liberdade.

Hoje, esse mesmo objeto se configura como uma peça essencial que compõe a indumentária funk. Todavia, podemos considerar que as atribuições de sentidos relacionados à minissaia anteriormente são os mesmos na cultura funk? Não. E por quê? Algumas roupas usadas no universo feminino do funk recebem signos específicos, que podem se transformar em estigmas e, por consequência, criar estereótipos.

O vestuário muda de acordo com o estilo de funk, como de raiz, funk melody, funk putaria e funk ostentação?

Sim, pois esses estilos do funk acompanham uma linha histórica quase que "evolutiva" do ritmo. No início (final dos anos 70 e início dos 80), o funk tinha uma influência do movimento soul e black, de influência americana. Logo depois, quando os funkeiros começaram abordar a realidade das favelas e de suas experiências, foi classificado como "de raiz". Já nos anos 90, surgiram os MCs de funk melody e proibidões ou putaria; estes perduram ainda hoje. O funk ostentação surge no momento em que a polícia pacificadora proíbe os bailes nas comunidades.

Foto: Vincent Rosenblatt / Agencia OlharesE como a mulher é vista no funk?

O papel de destaque notoriamente exercido pela mulher no funk se dá através do protagonismo que se desenvolve através da dança e nas letras das músicas. Algumas fazem referência de forma agradável com elogios e em tom de conquista, na qual ela é tratada como a “poderosa” e “glamourosa”, atribuições bem vistas pelo público em geral. Mas, em outros casos, ela é tratada de maneira jocosa, como “cachorra”, “potranca”, termos que, muitas vezes, chocam o público externo.

Esses termos, contudo, são bem recebidos por grande parte dos participantes da cultura funk. Essa aparente divergência entre os termos utilizados não causam nenhum tipo de constrangimento às frequentadoras dos bailes funk. No mesmo contexto, a mulher se assume discursivamente como bela e sedutora, aludindo, em alguns casos, um caráter fetichista, mas também como a “cachorra”, a princípio, não demonstrando indignação ou sentimento de ofensa em relação às diferentes formas de tratamento dirigidas a ela. Essa dicotomia de papel identitário tem sua dinâmica legitimada dentro do baile, os estigmas e estereótipos acontecem quando essa dinâmica se exterioriza.

Podemos questionar que corpo é esse que choca, que afronta e que causa desconforto à sociedade? Não é um corpo natural que me refiro, mas sim, um corpo cultural”.

Como a experiência corporal e a sexualidade influenciam a composição desse tipo de vestuário?

O corpo feminino tornou-se objeto de uma das mais fortes regulações sociais. A partir de 1970, inicia-se o processo de reivindicação pela autocracia do corpo com os movimentos feministas a favor do aborto e da liberdade sexual. O corpo é investido como direito das minorias, tornando-o lugar de soberania do sujeito. Dentro dessa lógica, o traço corporal traduz a independência do indivíduo em relação ao social, assim como a vontade de dispor do próprio corpo como bem entende e de afirmá-lo como uma identidade escolhida (...) Um fator relevante a ser considerado sobre a imagem associada à mulher funkeira de origem popular é a relação da manutenção do seu corpo e da sua exibição para a sociedade. Podemos questionar que corpo é esse que choca, que afronta e que causa desconforto à sociedade? Não é um corpo natural que me refiro, mas sim, um corpo cultural.

E qual o retrato do corpo feminino no funk?

No movimento funk, o corpo feminino é encenado como um objeto de poder, independente do padrão estético estabelecido, a reivindicação da sensualidade no funk fornece popularidade a artistas, como Tati Quebra Barraco, que se utiliza do discurso da estética fora dos padrões, na música “sou feia mas tô na moda”, para enfatizar seu poder de dominação com sua identidade singular. A relação com o corpo, não como superfície, mas como parte integrante da construção performática da identidade da mulher no funk, pode ser pensada como uma forma de existência política por inverter padrões de beleza instituídos e dos discursos sobre o sexo no campo do exercício de poder.

Como o figurino do funk se desenvolveu ao longo da história?

Baile Emoções, na Rocinha (Foto: Cris Isidoro / Diadorim Ideais)Como protagonista, a história da mulher no funk é bem recente. Alguns historiadores dataram a partir de 2001. A vestimenta utilizada pelas mulheres nos bailes é parte constitutiva do funk, do mesmo modo que a dança. Mulheres de origens diferentes que frequentam os bailes utilizam o mesmo código indumentário, vestem-se com roupas que valorizam as formas corporais, algumas vezes de extremo apelo sensual. No entanto, em conversas realizadas com a Estilista Sonia Izidoro, nem todas as roupas têm um caráter sensualizador. Ela atentou para as cantoras de funk melody – estilo de funk com letras românticas – que utilizam uma roupa “mais infantil”. Ou seja, o vestuário segue uma outra linha, suas roupas são em tons de rosa, suas estampas e formas são diferenciadas dos demais.

A estilista chamou a atenção também para um fato recente e relevante na cultura funk, que segunda ela é a “carnavalização da indumentária”, que diz respeito à incorporação de elementos característicos das fantasias de carnaval no vestuário funk. Mais uma vez, evidenciando a influência e a interação dos movimentos culturais (...) a maioria das cantoras e frequentadoras dos bailes funk participam também dos desfiles de escolas de samba no carnaval.

A relação com o corpo, não como superfície, mas como parte integrante da construção performática da identidade da mulher no funk, pode ser pensada como uma forma de existência política por inverter padrões de beleza instituídos e dos discursos sobre o sexo no campo do exercício de poder”.

Assim como o funk, os outros estilos musicais também têm um vestuário próprio. Eles se parecem de alguma forma?

Sim, como o samba e o forró. Há um intercâmbio cultural muito grande no que se refere ao vestuário feminino. Até porque essa influência se dá por estilos culturais dentro da mesma classe social. Nesse sentido, utilizei o autor Nestor Canclini para embasar o conceito de culturas híbridas. Para o autor, a desconstrução de ideias hegemônicos acerca do conceito de hibridação cultural está pautada sobre três vertentes: a primeira se refere à queda de grandes centros disseminadores de cultura, devido à grande variedade cultural globalizante, pois não há mais um grande centro que dita cultura de forma homogênea. Em segundo, a disseminação de gêneros impuros – podemos perceber que diversos ritmos musicais se misturam criando novas variações de produtos musicais, além dos costumes que se misturam e criam variações estéticas novas e refinadas. Por último, a desterritorialização, que para o autor foi um processo fundamental para que ocorresse a difusão e a globalização das culturas.

Quais as diferenças mais salientes entre o figurino masculino e o feminino do funk?

As diferenças se traduzem pela relação de gênero tão discutidas nas músicas e no universo funk em geral. Atualmente, temos um "gênero musical" no funk que se caracteriza pela ostentação masculina, cujas letras das musicas reafirmam o interesse e valoração pela aquisição de bens materiais (carros, joias e roupas). Seja para exibir entre os homens como uma forma de competição ou para conquistar um número maior de mulheres. A aquisição de roupas de marca no universo masculino representa status de superioridade e dominação. Para as mulheres, sedução e luxúria. Rola uma competição entre elas, mas está sempre relacionada à exibição e ao culto do corpo.

Quais são as marcas de roupa preferidas pelos funkeiros?

Para os homens, as marcas têm o estilo surfista, como Rip Curl, Quiksilver, Billabong, Redley e Oakley. Para as mulheres, por bastante tempo foi a calça da Gang. Hoje, as cantoras e estrelas do funk encomendam suas roupas para espetáculo e as funkeiras compram em lojas onde o estilo sensual seja característico.

No momento, você está vivendo entre a Alemanha e o Brasil. Quais os projetos para o futuro próximo?

Participo da organização do evento de moda Berlin Alternative Fashion Week e e estou elaborando um projeto com financiamento do Ministério da Cultura (Minc) para um desfile de moda funk carioca na próxima edição da semana de moda. Esse projeto seria a execução da conclusão da minha pesquisa de mestrado.

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