“Nunca parei, eu saí de cena”, conta Di Melo

Em 40 anos de estrada, artista produziu disco cultuado pela crítica e outros 10 trabalhos pouco conhecidos

“Estou feliz com o acontecimento, não poderia ter sido melhor”.

O telefone toca e quem atende é uma voz serena. “Pois não”, diz a mulher do outro lado da linha. A dona da voz gentil é Jô Abade, que anda a mil por hora ajeitando todos os compromissos de Di Melo. Além de produtora e assessora de imprensa, é também parceira do músico pernambucano, que vai lançar neste sábado (27/2) o disco “Imorrível”, no Sesc Belenzinho.

Todo mundo acha que só existe o disco de 1975. Mas, ao longo desse tempo, fui criando, recriando e recriando... Tenho 100 músicas gravadas

Depois de 40 anos da gravação do primeiro álbum oficial, o cantor e compositor da década de 70 volta com força total. Não se pode dizer que Di Melo fez como a fênix - que ressurge das cinzas -, até mesmo porque o artista nunca morreu. “Imorrível” é um grito criativo do músico que foi tratado com despeito pela grande mídia, mas que não deixou se abalar.

“Nunca parei, eu saí de cena”, contou o artista que lançou o disco Di Melo (1975), pela EMI Odeon, trabalho cultuado pela crítica, além de outros dez álbuns pouco conhecidos. Entre os sucessos estão “Kilariô”, “A Vida em Seus Métodos Diz Calma” e “Se o mundo Acabasse em Mel”.

Na véspera de apresentar ao público paulistano seu novo trabalho, Di Melo se demonstra radiante em entrevista ao Moozyca: “Estou feliz com o acontecimento, não poderia ter sido melhor”. O disco traz composições inéditas do artista junto a conterrâneos de Recife, pertencentes a uma geração pós-manguebeat, com participação do célebre guitarrista Olmir Stocker e dos vocais de BNegão e Larissa Luz.

Você está lançando o disco “Imorrível”, depois de 40 anos desde o seu primeiro álbum. O que você produziu nessas quatro décadas?

Todo mundo acha que só existe o disco de 1975. Mas, ao longo desse tempo, fui criando, recriando e recriando... Tenho 100 músicas gravadas, além do disco da EMI Odeon, lançado há 40 anos. Nesse tempo, produzi 10 discos, que são vendidos nos meus espetáculos. Tenho dois livros compilados, dois documentários... Quer dizer, na verdade, eu nunca parei, eu saí de cena. Sempre fiz shows intimistas, festas, trabalhei 15 anos com música italiana. Mas saí de andada feito caranguejo e fiquei 10 anos circulando com Geraldo Vandré. Tenho 12 músicas inéditas com Geraldo Vandré, tenho uma música inédita com Baden Powell, o Jair Rodriguez gravou duas músicas minhas, com Max de castro e o Wilson Simoninha. Também tem uma música minha com o Wando, em que ainda era conhecido como Bob Di Melo. Sempre tive a preocupação de fazer coisas diferenciadas, fugindo sempre do lugar comum. Não adianta fazer aquilo que está todo mundo fazendo.

BNegão se apresenta com Di Melo (foto: Bela Gregório / Soul Art)

Como foi a produção do álbum “Imorrível”?

O Pedro Diniz, que toca na minha banda, em Pernambuco, achou que deveríamos fazer este novo trabalho, que foi produzido no melhor estúdio de Pernambuco, o Casona Estúdio. Ele fica dentro de um sítio, praticamente à beira-mar, com um astral belíssimo. Juntamos alguns músicos do Madeira Delay e outros do Bomba do Hemetério e o Maestro Forró. Participaram 56 pessoas no disco. Cantando, estiveram presentes BNegão e a Larissa Luz. Tem uma música minha com Geraldo Vandré inédita e maravilhosa. A canção “Diuturno” é minha e de Valdir da Fonseca. O trabalho está esmerado, nada que deixe a desejar para o que está no mercado em termos de som, composição e arranjos. Estou feliz com o acontecimento, não poderia ter sido melhor.

Onde foi gravado o álbum?

O disco foi gravado no Rio de Janeiro e em São Paulo. E teve participação também de Olmir Stocker, conhecido como Alemão, que é um dos melhores guitarristas do Brasil. Se você chega no exterior, os caras estendem o tapete vermelho para ele.  Ele está com oitenta anos e dando aulas na Universidade Livre de Música (ULM).

Correu um boato há algum tempo de que eu teria morrido em um desastre de moto (...) Pois se esqueceram de me avisar

De onde vem o nome “Imorrível”?

Correu um boato há algum tempo de que eu teria morrido em um desastre de moto. O acidente ocorreu de fato e tive que sair de cena por seis meses. Certa manhã, um cara me liga de Londres e diz: Di Melo, está em pé, então se sente. E ele disse: foi feita uma pesquisa em nível mundial e você está entre as dez melhores vozes do planeta. E dizem que você gravou um único álbum e que morreu em um desastre de moto. E eu digo: pois se esqueceram de me avisar (risos).

A mídia foi relapsa com seu trabalho nesses 40 anos?

De certa forma, quando me coloquei no mercado, toquei bastante, fui para as rádios e tal... Mas tinha uma invocação contra a minha pessoa, creio eu um despeito. Daí fui pegando bode da coisa. Eu estava no disco do Wando, na música “Volta”, estava no disco Abra um Sorriso Novamente, do Jair Rodrigues, com uma música chamada “Paspalho”. Meu disco estava tocando e vendendo... E, quando fui receber os direitos autorais pelo trabalho de um trimestre, tinha apenas onze cruzeiros! Isso me deixou muito para baixo. Não que eu fizesse o trabalho só por dinheiro, mas o gostoso é amar e ser amado. Fazer o seu trabalho e conseguir sobreviver dele é a coisa mais fantástica do mundo.

Como foi produzido o documentário "Di Melo, O Imorrível"?

Coincidentemente, surge o Alan Oliveira, de Recife, com a ideia de fazer um documentário. E surge também o Rubens Pássaro, de São Paulo, com a proposta de um filme. Ele havia terminado o filme sobre o músico Miguel de Deus (Black Soul Brother) e outro sobre o Corinthians (Ser Campeão é Detalhe). Então apresentei um ao outro e deu super certo. Foi o pontapé inicial para o documentário, que ganhou dez prêmios, dentre os quais o Kikito, no Festival de Gramado, e foi para o Canal Brasil. Normalmente, um documentário gira um ano – e este ainda continua. Recentemente, fomos a Belém do Pará, onde fizeram outro documentário que deve estar rodando em breve.

Como foi gravar “Di Melo”, em 1975, que saiu pela EMI Odeon?

Desde o início, o disco foi enfatizado como um trabalho de peso. Quem toca nesse trabalho é Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Cláudio Bertrami, que era do Medusa, Rubén Romero, que tocava bandeneón para o Astor Piazzolla. Tem também Capitão, Dirceu, o baterista. Esse cara morreu aleijado de tanto tocar bateria. O Milton Banana deu uma canja, mas não saiu o que ele tocou. Então a bateria ficou por conta do Dirceu. Isso com arranjos de José Briamonte e presença do Geraldo Vespar. Foi uma loucura esse disco.

O interesse na sua música vem crescendo?

Algumas pessoas me dizem que meus discos estão tocando lá fora. Mas eu nunca recebi um centavo furado. Realmente, cheguei à Holanda e encontrei meu disco por 700 euros, todo novinho. E um outro todo arregaçado, com encarte rasgado, por 350 euros. E pensei: para onde está indo este dinheiro?

Estava fazendo [o disco] na República Checa, mas a gravadora está embolsando o dinheiro e não está entregando os discos

Como começou sua carreira?

Vim a primeira vez para São Paulo com o Wanderley, do Roberto Carlos. Então, ele me levou a EMI, que gostou do meu trabalho. Mas, naquela época, eu não estava me sentindo bem, porque era moleque acostumado à beira-mar; e aqui era um frio de rachar mamona. Depois de um tempo, voltei para Recife, fui ao Parque São Pedro fazer pinturas, tocar a minha viola. E tudo que era artista que aparecia em Recife eu encarnava. Até que encontrei Jorge Ben e toquei para ele. E ele disse: rapaz, seu trabalho é bom, é diferente – e me deu o cartão de Roberto Colossi, que era o empresário de todos os artistas da época, como Jorge Ben, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Trio Mocotó. E ele gostou da minha música e me apadrinhou. Na época, tinha muita caravana de shows e ele me encaixou lá. Foi por aí que as coisas começaram a acontecer.

Como foi trabalhar com apoio do financiamento coletivo pela internet?

Esse disco foi bancado pela gente, gastamos mais de R$ 100 mil. E como a grana foi acabando, então colocamos no Kickante para angariar fundos.  Vou ter que fazer este disco por aqui, porque, antes, estava fazendo na República Checa, mas a gravadora está embolsando o dinheiro e não está entregando os discos. O Clenio Lemos, dono da gravadora Media4Music, está pegando a grana de todo mundo e não está entregando nada. Paguei por mil discos e até agora nada!

O que mudou em 40 anos, no seu mundo interior e exterior?

O mundo mudou geral, algumas coisas para melhor, outras para muito pior. Mas não existe poeta de uma só face. Há uma dualidade em tudo, polos positivos e negativos. Hoje, tem a facilidade da mídia. Como a televisão, que é uma faca de dois gumes, ela tanto te eleva como te poda. Vai de você tocar o seu barco. 

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