Cantora alemã Dota fala sobre sua relação com a música brasileira e o Nordeste

Artista que gravou dois álbuns no Brasil fala sobre parceria com Chico César e sua paixão pelo país

Cantora de rua ficou conhecida como Kleingeldprinzessin (a princesa dos trocadinhos)

2010 foi extremamente importante para que eu reconhecesse o valor da música tupiniquim na Europa. Nesse ano, vivia em Colônia, no Oeste da Alemanha, e trabalhava na redação do portal jornalístico Deutsche Welle. Ao longo dessa experiência, tive o prazer conhecer pessoas de todo o mundo, que sempre vinham com um pedido semelhante em alguma festinha: “toca um Jorge Ben”, ou: “você sabe aquela do Tom Jobim”?

Quando era criança, tive um babysitter brasileiro (...) e eu fiquei com uma fita cassete da Elis Regina, que era dele. Ele perdeu a vida em um acidente de bicicleta, quando eu tinha 10 anos. Eu ouvi tanto a fita que eu já podia cantar tudo, antes de entender uma só palavra. 

Ficava cada vez mais óbvia essa forte relação das pessoas com a música brasileira, principalmente a carioca. Porém, em março de 2010 tive uma grande surpresa. Revirando uns arquivos de uma ex-namorada, encontrei um álbum da cantora alemã Dota Kehr. Lembro que ouvi dois álbuns da artista (Schall und Schatten e Blech und Plastik) e achei interessante a forma como ela unia referências da música brasileira com a música alternativa de Berlim. Quando ouvia suas músicas, tinha a seguinte ideia: “essa menina não está falando apenas do Rio de Janeiro, mas sim do Brasil, do Sul ao Nordeste. Ou melhor, está falando do mundo”. E depois fiquei sabendo que ela havia morado em Fortaleza e era louca por Chico Cesar! Estava tudo explicado.

Depois de entrevistá-la, escrevi uma matéria para o site da Deutsche Welle que começava da seguinte forma: “Desde 2003, Dorothea Kehr, mais conhecida como Dota, vem encantando músicos brasileiros com a sonoridade da sua voz. Quem ouve a cantora berlinense cantar algumas das suas canções em português, percebe a intensidade da sua relação com a música brasileira”.

Dota começou como cantora de rua e ficou conhecida como Kleingeldprinzessin (a princesa dos trocadinhos). No início, ainda com poucas músicas próprias, ela cantava apenas para o público da capital alemã. Hoje, a artista já possui onze discos gravados, dois deles no Brasil (Mittelinselurlaub e Schall und Schatten). O seu último álbum foi lançado no fim de 2013 em Berlim e se chama Wo soll ich suchen (Onde eu devo procurar).

Abaixo, a íntegra da entrevista com a princesa Dota:

Moozyca: Como foi a gravação do seu álbum Schall und Schatten em São Paulo, em 2009?

Dota Kehr: Foi um trabalho em conjunto com músicos que eu já conhecia de projetos anteriores. Em 2003, estive em Fortaleza e gravei um álbum. Alguns dos músicos, que também tocam na banda Cidadão Instigado, estavam mudando de Fortaleza para São Paulo nessa época. Eu pude morar com eles e fizemos muita música juntos, gravações e shows, mas também ficávamos simplesmente em casa tocando e cantando.

Além disso, passei muito tempo com Chico (César) e gravei alguns backings para o seu último CD, Forró e Frevo, que é um excelente disco. E Chico me apresentou canções que ele tinha escrito, mas que ainda não havia gravado, como por exemplo, a linda música Do Além, que eu pude gravar em Schall und Schatten. 

MZ: Quais músicos brasileiros participaram da gravação do álbum?

DK: O guitarrista Regis Damasceno. Com ele, eu criei os arranjos. Também o baixista Rian Battista e Priscila Brigante na bateria e, em algumas músicas, o Beto Gibbs na bateria. E houve a participação dos convidados Chico César e Fernando Catatau, o cantor de Cidadão Instigado.

MZ: E como foi a participação de Chico César em Schall und Schatten?

DK: Eu estava muito ansiosa, porque nós fizemos um dueto juntos. Aconteceu que o Chico havia me perguntado alguns anos atrás se eu poderia fazer uma tradução da sua canção A primeira vista. Então, eu fiz e ele gostou. Daí surgiu a ideia de uma versão única em português e alemão, que gravamos na casa dele.

MZ: Como é a sua relação com o Chico?

DK: Nos conhecemos desde 2004 e ficamos bons amigos. Nós nos encontramos sempre que ele está em Berlim. Eu o admiro muito como artista. A sua criatividade, o seu texto, a sua musicalidade e o fato de que ele sempre está experimentando coisas novas. Por exemplo, o CD que ele gravou com um quinteto de cordas e, depois, ainda fez o disco Forró e Frevo. E ele manteve, apesar dos muitos anos de intensa turnê, inacreditável espontaneidade e alegria de tocar.

MZ: E você gosta de cantar em português?

DK: Sim, muito! É a melhor língua para se cantar! Em todo o caso, é mais bonito para o vocal do que o alemão. Porque o alemão tem muitas sílabas átonas e, por isso, os vocais soam tão mal. Mas, apesar disso, quando eu escrevo sozinha, eu faço em alemão, porque em nenhuma outra língua eu posso expressar tantas nuances, criar metáforas e aí por diante.

Creio que meus textos funcionam um pouco como sonhosMZ: Você concorda que neste álbum há menos influência do samba e da bossa nova, se comparado com outros discos seus, como por exemplo, Blech und Plastik?

DK: Sim. É verdade. Eu gosto muito de samba e bossa nova. Mas Regis, com quem criei os arranjos, não é fã de samba. Eu não tinha nenhum conceito pré-formulado de como o disco deveria ser quando eu fui a São Paulo. Era importante para mim tocar com meus amigos brasileiros as canções que eu tinha escrito e deixar que elas se tornassem o resultado dos ensaios. Quem sabe? Talvez o próximo disco tenha novamente muito de Bossa Nova. Eu mesmo me deixo surpreender com as ideias que surgem.

MZ: No disco Mittelinselurlaub também participaram músicos brasileiros. Como foi a gravação em Fortaleza?

DK: Foi muito prazerosa. Eu cheguei a Fortaleza e obviamente não conhecia ninguém. Então eu procurei alguém com quem eu pudesse ter aulas de violão. Eu conheci Danilo e fiquei imediatamente encantada com as suas composições e com o seu jeito especial e criativo de tocar violão. E ele ficou encantado com minha voz, disse ele. De forma que já no primeiro encontro tivemos a ideia de gravar um CD juntos. E então foi tudo muito rápido. Em quatro meses ensaiamos, gravamos e editamos tudo.

 

MZ: O que mudou desde o início da sua carreira como cantora de rua até hoje?

DK: Na verdade, tudo. Na rua, eu só conseguia cantar as músicas muito alto e também tinha escrito apenas duas canções próprias, que eu sempre cantava alternadamente. Depois eu descobri muitas facetas, experimentei muito musicalmente e textualmente e continuei me desenvolvendo. Agora, eu vivo da música e em breve lançarei meu oitavo CD.

O que não mudou é que eu tomo todas as decisões sobre minhas músicas e apresentações. Isso, porque eu não tenho nenhuma gravadora e agência, e faço tudo sozinha e independentemente. Às vezes tenho muito trabalho, mas eu estou feliz em estar totalmente livre.

Creio que meus textos funcionam um pouco como sonhos. Eles fazem parte de algo sobre o mundo numa mistura livre de impressões, observações, fantasias e sentimentos.

MZ: Como começou a sua relação com o Brasil?

DK: Quando era criança, tive um babysitter brasileiro. Depois, quando ele não trabalhou mais como babysitter, ele se tornou um grande amigo da minha família. E eu fiquei com uma fita cassete da Elis Regina, que era dele. Ele perdeu a vida em um acidente de bicicleta, quando eu tinha 10 anos. Eu ouvi tanto a fita que eu já podia cantar tudo, antes de entender uma só palavra. E porque eu amei tanto a música, que tinha as lembranças dele, eu sempre quis ir ao Brasil e lá aprender e conhecer muito.

MZ: O que você gosta de ouvir?

DK: MPB, Chico Buarque, Chico César, Caetano, João Bosco e Radiohead. Também Calixo, Cake e os Beatles.

MZ: Dizem que você tem uma grande semelhança com a Astrud Gilberto como cantora. O que você tem a dizer sobre isso?

DK: Eu gosto da Astrud Gilberto. Eu não tenho nada contra a comparação. Mas também poderiam certamente mencionar tantas outras cantoras. Jornalistas de música precisam sempre fazer comparações. Você não poderia ser diferente. Eu me sinto muito honrada com esta comparação.

MZ: Você utiliza muitas metáforas, imagens e às vezes cria um mundo de conto de fadas nas suas canções. Mas você também tem um olhar crítico sobre a realidade. Como você costuma compor?

DK: Muitas vezes escrevo um texto durante um mês e vou acumulando ideias. Creio que meus textos funcionam um pouco como sonhos. Eles fazem parte de algo sobre o mundo numa mistura livre de impressões, observações, fantasias e sentimentos.

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