"A paz, como a música, é uma necessidade universal”

Baixista do Mercado de Peixe fala sobre novo álbum, quebra de fronteiras e o caipira num mundo modernex

Banda Mercado de Peixe (Foto: Cosmo Roncon Jr.)

Se você chega a Bauru, vai logo perceber que a cidade está aberta para o mundo, como uma flor do Cerrado que desabrocha com pouca água. Ao lado da rodovia Marechal Rondon fica a Universidade Estadual Paulista (Unesp), que atrai milhares de pessoas para um dos maiores polos universitários do estado, formado por outras faculdades como Unip, Usc e Usp. Um shopping center figura na entrada da cidade, na frente de uma réplica de uma estátua da liberdade, algo um pouco piegas, mas o desenvolvimento parece perdoar esse tipo de coisa. 

O trem teve um papel de disseminar a cultura. A cidade é um ambiente propício para novas ideias, isso gera uma criatividade e uma efervescência constante

A cidade cresceu em torno de uma ferrovia, ou melhor: um grande entroncamento ferroviário bem no coração do estado. Dali partiram trens para todos os cantos, até mesmo o Trem da Morte para a Bolívia passava por aquelas terras. Conhecida como "Cidade Sem Limites", Bauru colheu muitos frutos por conta da sua localização, que criou uma espécie de laboratório frugal, um centro de experimentações culturais.

É deste núcleo que vem a galera do Mercado de Peixe, que está para completar 20 anos de banda com o lançamento do álbum Água da Faca. Com uma perspectiva de renovação, esquecendo qualquer intento saudosista de deslumbre ao início da carreira, a banda quer mesmo é experimentar. E assim foi o processo de produção de Água da Faca, gravado em um sítio de uma cidadezinha vizinha, Piratininga, por onde passa um córrego cujo nome batizaria o disco.

Formado em 1996, em Bauru, o Mercado de Peixe surgiu como um grupo que se dedicava à música brasileira e à cultura popular. Seu primeiro álbum, “Aparições”, com registros de apresentações ao vivo, saiu em 99. No começo dos anos 2000, o grupo passou a pesquisar a cultura caipira e a incorporar viola, acordeon e as temáticas interioranas ao som. O resultado é um som que resgata as raízes locais e nacionais, sem deixar de engolir o resto do mundo.

Hoje, a banda é formada por Juninho Madureira (vocal), Fernando TRZ (synths, piano elétrico), Paulo Pires (bateria), Emerson Gomes Vanderlei (percussão, efeitos), Fabiano Alcântara (baixo) e Ricardo Polettini (guitarra e viola). O Moozyca entrevistou o baixista Fabiano Alcântara, que falou sobre o som do Mercado de Peixe, o interior de São Paulo, paz e a quebra de fronteiras globais...

Bauru é uma cidade de entroncamento ferroviário, mas também parece ser um entroncamento de ideias, haja vista a sua diversidade cultural. Como essa mescla regional foi absorvida pela banda?

O Eric Hobsbawm fala isso no livro "História Social do Jazz": que o trem teve um papel de disseminar a cultura. A cidade é um ambiente propício para novas ideias, isso gera uma criatividade e uma efervescência constante. Tivemos uma relação forte com a cidade, onde ainda hoje moram dois integrantes, o Emerson e o Ricardo.

Nosso selo Samacô Records produziu a primeira coletânea de hip hop de Bauru: “Hip Hop Sem Limites”. Por ele, também gravamos música dos índios Terena, pesquisamos folia de reis, a catira. Das bandas atuais e produtores de Bauru, gostamos de Bonequinho, Legalê, Coruja BC, Le Blanche, The Bad Mind Temper, akaaka, Universo Elegante.

A banda cria uma espécie de fusion brazuca, com viola, samples, efeitos eletrônicos, sanfona, etc. Isso é ser pós-caipira?

O caipira é contracultural, ele é seminômade, vive nas sombras da civilização. Ele agora é hipster, todo mundo quer viver na natureza, ele é invejado por quem vive na cidade.

Pós-caipira vem de uma brincadeira do antropólogo Hermano Vianna, ele estava fazendo uma analogia com o pós-rock, que foi uma galera que meio que aboliu os gêneros, fazia uma música meio eletrônica, meio rock, meio modal, mântrica, que ao mesmo tempo recuperou o Tom Zé, que sempre foi vanguarda e sempre vai ser. Nesse disco novo, o Água da Faca, tem muito de world music 2.0 e música latina, Bombino, Tinariwen, Bomba Stereo, Dengue Dengue Dengue, Fela Kuti, Karnak, Marcos Valle, Marku Ribas, João Donato, Caetano.

A cultura popular e a cultura do remix se baseiam no transe e nas batidas inspiradas na matriz africana.  Queríamos fazer um disco que refletisse o mundo de 2015, o ponto de partida foram os chamados Caminhos do Peabiru, por serem pontos de aproximação entre a cultura brasileira e a andina, justamente o papel que o trem também desempenhou.

E o que é ser caipira pra você?

O caipira é contracultural, ele é seminômade, vive nas sombras da civilização. Ele agora é hipster, todo mundo quer viver na natureza, ele é invejado por quem vive na cidade. Mesmo que essa ideia muitas vezes seja equivocada. Poucas cidades do interior são rurais, as pessoas acham que têm vaquinhas pastando. Bauru é super urbana, é uma cidade-neon. Isso também, é claro, tem um impacto nos costumes e pensamentos.

O que mudou de “A Saga Low Tech do Caipira 1” até agora?

Hoje é muito mais fácil você fazer música e achar seu público, ficou todo mundo mais independente, mais criativo e a diversidade da música é maior. Esteticamente, o avanço foi grande, comercialmente está ruim pra todo mundo. Pouca gente ganha grana na indústria, então voltou a ser meio que uma parada underground.

O Saga, de 2001, é nosso segundo disco, o primeiro é o Aparições, de 99. Esse foi um EP que gravamos todo em casa para lançar no Fórum Social Mundial. Ele era realmente low-tech e abriu o caminho para o "Roça Elétrica", com a assimilação da viola e da sanfona e o inicio do namoro com o caipira.

O que é Água da Faca para vocês?

Água da Faca é o nome do córrego que passa atrás do sítio onde compusemos o disco. No Água da Faca, fomos ouvir quem seriam os caipiras do mundo. Os náufragos, os refugiados, os bolivianos, os indígenas.  Água da Faca é cheio de participações.

Este é o oitavo disco da banda Mercado de Peixe, que já está na estrada há quase duas décadas? Como enxergam esta fase da banda neste momento?

A paz, como a música, é uma necessidade universal. Quisemos fazer uma metáfora, com essas aproximações, de que as fronteiras precisam ser extintas. Todo mundo deveria ter o direito de circular por qualquer país.

Como não estamos numa onda saudosista, fazendo músicas novas, com ideias novas, é um recomeço, uma nova chance de fazer um negócio legal, que acrescente alguma coisa para a vida das pessoas. Está sendo legal encontrar a galera da banda, viajar, tocar.

Como foi tocar com grandes figuras, como Saulo Duarte, Rômulo Nardes e do multi-instrumentista Pipo Pegoraro, entre outros? 

O Pipo mixou e ajudou a produzir dois discos do Lavoura, que é a outra banda que eu, TRZ e o Pires temos, um som instrumental. O TRZ gravou no disco do Pipo também. Ele é um cara com muita sensibilidade e tem uma concepção musical profunda, manja tanto dos aspectos técnicos quanto da emoção envolvida. A mix do Pipo valorizou o lado dub, com muitas espacializações, a concepção musical dele chega a ser visual.

Saulo Duarte é paraense, cresceu em Fortaleza, toca com Russo Passapusso, Anelis Assumpção, Curumin, ganhou o Prêmio da Música Brasileira deste ano e é um talento que vai explodir a qualquer momento. A Tika, o TRZ  produziu o primeiro EP dela, e ela vem cantando com a Kika, as vozes delas casam perfeitamente. São duas cantoras excelentes da nova cena também. Rômulo Nardes, do Bixiga 70, estudou na Unesp também, conhecemos desde os tempos de Bauru.

Banda vem do coração do estado paulista (Foto: Cosmo Roncon Jr.)

Junião gravou em todas as músicas, o disco tem muita percussão, algo que queríamos incorporar novamente e que está no DNA da banda, ele foi da formação clássica da banda e hoje toca com Senzala Hi-Tech, que tem o MC Sombra, e com o Lavoura. É uma galera que acrescentou muito ao disco.

O disco chegou na web há um mês. Já deu pra sentir o feedback do público?

Já repercutiu na França, Estados Unidos, Canadá, o selo japonês Bump Foot, especializado em Creative Comons, irá lançá-lo este mês. Algumas rádios universitárias brasileiras também estão tocando.

Como foi o processo de composição em Piratininga?

Conviver deu sintonia ao trabalho. O sítio não tem internet e não pega celular. O acesso é por uma estrada de terra. Com isso, a gente tinha que conversar e ficar resolvendo as coisas, comida, invasão de sapo, ir até a vila comprar alguma coisa, tipo dinâmica de grupo.

O isolamento nos deixava livres até mesmo pra não tocar e ficar ouvindo som, fazendo churrasco, quem curte beber, bebia, muito diferente de um estúdio normal que é meio parecido com um consultório médico. Passamos um ciclo lá e isso virou música.

Há no álbum um grito de paz envolvido numa estética multicultural?

A paz, como a música, é uma necessidade universal. Quisemos fazer uma metáfora, com essas aproximações, de que as fronteiras precisam ser extintas. Todo mundo deveria ter o direito de circular por qualquer país para que não acontecessem absurdos como estamos vendo com os refugiados da Síria, da Eritreia, da Nigéria, da Somália.

Qual a relação do Mercado de Peixe com a cena Manguebeat, mais especificamente Chico e Nação Zumbi?

Quando a banda se firmou em 1996, éramos muito fãs. Foi importante pra abrir nossa cabeça pra cultura popular. Com o tempo, passamos a pesquisar a viola, a sanfona, os "causos" do interior e acabamos desenvolvendo uma estética própria. Temos tantas referências em nosso som que nem sabemos dizer. Cada um dos seis tem a sua, com certeza. Alguns pontos de aproximação são Hermeto Pascoal, Tim Maia, Jorge Bem, Tom Zé, Miles Davis, Coltrane, jazz fusion, rock progressivo, tudo que a gente já ouviu acaba sendo uma influência.

 

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