"Não fosse a cultura dos pobres e iletrados, seríamos o quintal de Nova York"

O Moozyca foi ao CCSP pra falar sobre a primeira fase da música caipira brasileira com o pesquisador Ivan Vilela

O caipira paulista foi o único representante da classe camponesa brasileira que conseguiu eternizar sua cultura por meio da música

A galera do projeto Goma-Laca convidou o violeiro e pesquisador Ivan Vilela para ouvir cururus, cateretês e modas de viola e conversar sobre a primeira fase do gênero musical caipira. E o Moozyca foi lá conferir, claro.

No encontro, realizado em ocasião do aniversário de 80 anos da Discoteca Oneyda Alvarenga, que fica no Centro Cultural de São Paulo, pouco mais de cinquenta pessoas, entre pesquisadores, aficionados pelo ritmo e meros curiosos, se juntaram para prosear sobre os discos da "série caipira", idealizados e financiados pelo pioneiro em gravação e difusão independente no Brasil, Cornélio Pires, no fim da década de 1920 - e lançados a contragosto pela Columbia.

Não existe na música popular brasileira nenhum segmento que reúna tantos ritmos agrupados sob o mesmo guarda-chuva como a música caipira

Vilela, que é doutor em Psicologia Social pela USP e mestre em Composição Musical pela Unicamp, destacou a importância da música caipira para a formação da cultura brasileira. “O caipira paulista foi o único representante da classe camponesa brasileira que conseguiu eternizar sua cultura por meio da gravação de músicas. Infelizmente, a história do Brasil, assim como no resto do mundo, foi contada pelos vencedores. Ainda bem que o Cornélio conseguiu gravar aqueles discos... Se não fosse a cultura dos pobres e iletrados, a exemplo da caipira, seríamos o quintal de Nova Iorque, como sonha parte da elite brasileira”, afirma o pesquisador.

A sofisticação do gênero caipira também foi e é negada por essa elite, de acordo com Vilela. "Não existe na música popular brasileira nenhum segmento que reúna tantos ritmos agrupados sob o mesmo guarda-chuva como a música caipira. Mas, no Brasil, ela é vista como uma música simplória, de menor valor, porque aqui o padrão de sofisticação é uma harmonia com muitos acordes, como a Bossa Nova. Mas não se pode analisar a complexidade de um gênero apenas pela quantidade de acordes. Se olharmos pelo recorte da diversidade rítmica, não existe nenhuma música tão sofisticada no Brasil como a caipira", diz.

Para ilustrar essa tese, durante o bate-papo, ouvimos cururus, cateretês e modas de viola, gravados de 1929 a 1940, por Zico Dias e Ferrinho, Mandy e Sorocabinha, Mariano e Caçula, Alvarenga, Ranchinho, Capitão Furtado, Raul Torres, Serrinha, Irmãos Laureano, Nhá Zefa, Xerém e Bentinho - todos lançados pela série da Columbia.

Ouça aqui "Jorginho do Sertão", primeira música caipira gravada na história, em 1929:

Ao Moozyca, Ivan contou algumas curiosidades sobre as circunstâncias que propiciaram as primeiras gravações de música caipira. Segundo o pesquisador, tudo começou em 1928, quando Cornélio Pires - com a ajuda de um sobrinho que havia feito três meses de aula de inglês - procurou o representante no Brasil da gravadora Columbia (braço da Byington & Company), Wallace Downey, propondo que o selo lançasse discos com material caipira autêntico. Downey, que não tinha poder de decisão, o encaminhou para o dono da gravadora, o empresário Byington Jr., que rejeitou a ideia, pois o gênero caipira, na mentalidade urbano-etnocêntrica da época, era uma forma de expressão "não-artística", conta o pesquisador.

Para demover Cornélio da empreitada, Byington desqualificou as chances de sucesso de uma série de discos com música caipira: "não há mercado para isso, não interessa", disse. Mas, convencido do potencial do projeto, Cornélio insistiu: "e se eu gravar por conta própria?". Surpreso com a proposta, Byington Jr aceitou, mas impôs dificuldades com a intenção de não fechar o negócio: "bem, nesse caso você teria que comprar mil discos. Quero dinheiro à vista, nada de cheque, e se o pagamento não for feito hoje mesmo, nada feito".

Cornélio comprou dois carros e um gramofone, e partiu em viagem pelo Brasil vendendo seus discos

O que o executivo não esperava é que ele voltaria, algumas horas depois, com um saco cheio de dinheiro que havia conseguido emprestado com um amigo, na Quinze de Novembro - rua que fica no centro da cidade de São Paulo. Aturdido com aquela cena, Byington perguntou: "o que é isso?", ao que Cornélio lhe respondeu: "uai, dinheiro! Você não queria dinheiro?". O empresário ficou perplexo e retrucou exclamando: "mas aqui tem muito dinheiro!". Então Cornélio explicou: "é que, ao invés de mil discos, eu quero cinco mil".

Não tinha jeito, o homem conseguiu a grana e estava determinado a fazer de tudo para que as gravações acontecessem. Ah, além disso, Cornélio também exigiu um selo roxo - diferente do dourado utilizado normalmente pela gravadora - e disse que seu disco custaria 2 mil reis a mais do que os outros. Byington aceitou as condições com a certeza de que Cornélio perderia todo o dinheiro investido.

Mas não foi isso que aconteceu, Cornélio comprou dois carros e um gramofone, e partiu em viagem pelo Brasil vendendo seus discos como água. A notícia de que um "doido" rodava o país vendendo álbuns com modas de viola, piadas e causos caipiras repercutiu pelos telégrafos de diversas regiões do Brasil. Dois meses depois de deixar a capital paulista, Cornélio enviou um telégrafo para a gravadora pedindo a prensagem de mais discos, pois ele já havia vendidos todos os cinco mil.

E aí, o tal do Cornélio é zyca ou não?

Amigos, esse é só um breve resumo desta história. Mas se quiserem se aprofundar no tema sugiro a leitura da tese de Ivan Vilela “Cantando a própria história: Música Caipira e Enraizamento”, que foi lançada pela Edusp. O livro também vem com um cd do Vilela, dá uma olhada: http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?id=414466

 

Inscreva-se no Moozyca

Leia também

"A paz, como a música, é uma necessidade universal”

O cientista da vanguarda baiana

O baile jamaicano-tupiniquim da OBMJ

Dica do Réu: densa e suave, Odara Sol encanta com um R&B de primeira

Discoteca criada por Mário de Andrade completa 80 anos

‘É mais barato produzir, então se produz muito’

“Minha música é negra, feminina e periférica”

“O rap é minha arma contra o preconceito que encontrei em SP”, diz Manno G


Inscreva-se no Moozyca