Pela música, dormi na rua. Quem nunca?

1991, Rock in Rio 2: não havia mais ninguém no universo. Éramos eu e a rede. Mais confortável que colo de mãe

Encerradas aquelas horas de loucuras osmoticamente integrado no mar de gente, fui me soltando à medida que a massa começou a diluir

Não que eu me orgulhe, mas aconteceu. E não me arrependo. Depois de uma tarde inteira de sol, espremido na grade à beira do palco, já não sentia mais as minhas pernas. Meus pés mal tocavam o chão. Não precisava. Uma massa de umas 80 mil pessoas formava um bloco único a sustentar o equilíbrio de cada indivíduo. Não havia mover. Ou nos movíamos, ou não. No plural. E, lá debaixo, as arquibancadas daquele Maracanã de 1991 envelopadas por outra multidão de cem mil pessoas transmitiam a sensação de que estávamos numa panela prestes a explodir. Olhando de longe, não se viam espaços. Apenas ondas de gente pra lá e pra cá.

Janeiro do Rio. Um calor infernal. E tudo parecia épico. Por estar na grade eu conseguia captar brisas mais frescas. E não havia essa história de pista vip. A melhor posição era conquistada no braço e na malandragem mesmo. O primeiro show passou despercebido: Hanói Hanói (alguém aí lembra deles?). Era pra ter tocado Barão Vermelho, que cancelou na última hora. Mas aí os Titãs entraram no palco e a coisa toda ferveu. Os nove em ação, no auge, eram de uma violência sem igual, com uma sonoridade incrível. Vinham de quatro álbuns espetaculares em sequência: Cabeça Dinossauro, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, Õ Blèsq Blom e Tudo ao Mesmo Tempo Agora. Em poucos momentos na história o rock brasileiro dispôs de uma banda tão poderosa no palco. Felicidade a minha por ter visto. Todo o meu vigor adolescente não se esgotava. Ao contrário, era eterno.

Sob um céu escuro, porém tão estrelado que até Carl Sagan duvidava. Não havia mais ninguém no universo. Éramos eu e a rede. Mais confortável que colo de mãe

Encerrado o set nacional, preparávamo-nos para a primeira incógnita gringa: Faith No More. Não tão desconhecido assim porque estávamos naquela época aprendendo a nos acostumar com o disco-porrada gravado ao vivo na Brixton Academy, de Londres. Foi o LP que despertou a atenção do mundo roqueiro. E fizeram jus às expectativas, incluindo as esquisitices de Mike Patton. Entraram no palco, destruíram sem pedir licença, consumiram cada segundo com total energia. Fizeram parecer rápido, num fôlego só. Sabe quando chega ao fim a volta da montanha-russa mais louca que você conhece? Então. Isso. Robert Plant viria pra manter a multidão enlouquecida, mas ele também cancelou e colocaram lá a chatice chamada Billy Idol. O que no fim das contas foi bom porque serviu de refresco enquanto aguardávamos a atração seguinte: Guns n’ Roses. E aí, querido leitor desta crônica, pra contar o que foi aquele primeiro show do Guns no Rock in Rio 2, em 1991, no Marcanã... só mesmo escrevendo um livro.

Encerradas aquelas horas de loucuras osmoticamente integrado no mar de gente, fui me soltando à medida que a massa começou a diluir. Tudo bem devagar. Afinal, cem mil pessoas atrás de mim precisavam sair antes. Como num trânsito engarrafado. O bloco que me sustentava em pé afrouxou e eu literalmente caí sentado. Como disse, não sentia mais minhas pernas. Mais ou menos uma hora após os acordes finais de Paradise City e eu ainda não havia deixado o Marcanã. Quando consegui me recompor, o auge da madrugada já atingira sua plenitude. Localizei um amigo que me acompanhava e saímos. As linhas de ônibus já haviam terminado seu horário. E então éramos dois moleques no centro do Rio de Janeiro com poucos centavos no bolso -, que, aliás, estavam contados para o bom e velho busão. Táxi? Hahaha, não. Muito caro. Coisa de rico. Celular? Hahaha, não. Isso não existia ainda. Naquela época, a gente saía e ligava de orelhão para a mãe alguns dias depois para avisar que estava vivo. Se desse! Por que então não usar o trocado do busão pra comprar fichas de orelhão e pedir pra alguém vir buscar? Não. Madrugada, barracas fechadas, não tinha como. Nem a cobrar? Não. Ninguém que a gente conhecia tinha carro mesmo...

Andamos poucos metros no entorno do estádio totalmente sem rumo, extasiados por um incrível dia de rock n roll. O corpo começou a reclamar de dor. Foi quando avistei um ponto de ônibus vazio. E naqueles dias ponto de ônibus se resumia a uma placa de concreto sustentada por dois pilares pequenos, feito cama de presidiário. E sem cobertura. Mas o que eu vi não era aquilo. Era uma rede artesanal feita em Itapoã pelas senhoras mais talentosas do agreste baiano, amarrada em coqueiros maduros e firmes, ao som quase-mantra da marola batendo na areia fofa no meio da noite. Brisa leve a sussurrar no ouvido. Sob um céu escuro, porém tão estrelado que até Carl Sagan duvidava. Não havia mais ninguém no universo. Éramos eu e a rede. Mais confortável que colo de mãe. Fui me acomodando, mergulhando va ga ro sa men te... me entrelaçando naqueles fios tão sabiamente interligados nos teares rústicos mais belos do sertão. A rede macia numa ilha deserta aonde a morena carioca viria a te despertar na manhã seguinte com um beijo suave nos lábios, um afago na testa e dedos lisos a buscar os contornos da nuca. Quando abrisse os olhos, ela te daria um sorriso sensual, angelical, carinhoso e protetor e logo te ofereceria uma tigela de salada de frutas frescas, da estação, recém-picadas em cubos simétricos. Conduzindo-te ao Paraíso em plenitude divina.

Minhas pálpebras separaram-se umas das outras em modo lento, permitindo atingir em minhas retinas o calor gostoso dos raios solares da manhã. Uma luz intensa me cegou, confundindo minha mente. Recompus-me aos poucos, como ao sair de um transe profundo, e o silêncio total foi inundado por um tsunami de barulhos.

Era apenas mais uma manhã que nascia no centro do Rio de Janeiro.

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