Raul Seixas que me desculpe, mas o diabo é o pai do blues

Juro que vejo a cara do belzebu na sombra da parede bem à esquerda de Robert Johnson

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O benefício da dúvida me atormenta. Sou altamente sugestionável, supersticioso, susceptível a perder noites em leituras e pesquisas pelas mais diferentes teorias da conspiração. E o mundo da música é cheio delas. A não-morte de Elvis Presley; as mensagens secretas na capa de Sargent Pepper’s Lonely Heart Club Band; a língua operada e sem freios de Gene Simmons; a sincronia perfeita entre The Dark Side of the Moon e O Mágico de Oz (ah, essa é verdade, vai dizer que não?!). Historinhas muito boas, eu sei. Mas, definitivamente, nenhuma é mais intrigante do que a de Robert Johnson, o pioneiro do Blues, o homem que vendeu sua alma ao diabo numa encruzilhada do Mississippi em troca da maestria na arte de dominar o violão.

Essa lenda sempre me vem à mente toda vez que ouço a palavra “blues”. E tem acontecido com frequência ultimamente: festivais de música com nome de celular; apresentações no Sesc Interlagos durante as férias escolares; a excelente crônica de Deyvis Drusian narrando a vida de Leadbelly, o bluseiro que Kurt Cobain queria ser, publicada aqui mesmo no Moozyca.

Conheci Johnson lá no meio dos anos 80 por causa do filme Crossroads. Fiquei chocado. Impactado. Lembro que na minha cabeça de wanna be adolescent muita coisa se transformou. Ou ao menos colocou mais lenha em tudo o que estava queimando: AC/DC, Iron Maiden, Queen e B52’s no Rock in Rio, Cabeça Dinossauro, Rádio Pirata, TV Pirata, Garotos Podres, Garotos Perdidos, São Paulo bicampeão brasileiro, Indiana Jones, Goonies, Marty McFly, Karatê Kid. Ok, chega de enrolação, não vou mentir, tudo isso pra dizer que vi Crossroads porque o personagem principal era interpretado pelo... Karatê Kid! Quero dizer, por Ralph Macchio. 1986. Apertei o play no videocassete imaginando uma coisa e, quando dei stop, era outra. Beeem outra! Logo eu, que nunca gostei muito de filme de música (hoje já mudei bastante), muito menos de musical (isso continuo não gostando).

Eu não sabia que Crossroads era baseado na lendária relação de Johnson com o capeta. Se eu soubesse, aí que teria visto mesmo. Já disse antes, esses temas pra mim são intrigantes, me fazem perder o sono de tanto pensar. Conta a história de um jovem estudante de música clássica – o Karatê Kid – e seu enorme apreço pelo blues de raiz. Humm... interessante, mas até aqui tudo meio água com açúcar e o bom-mocismo de Macchio. Curioso e teimoso (acho que então que me identifiquei), ele parte para o Mississippi para tentar desvendar a mística de Robert Johnson e ver se alguma coisa aconteceria de verdade em sua vida chata. É, começou a melhorar.

E não é que o mauricinho-que-toca-pra-cacete realmente encontra o cramulhão, o lazarento, aquele que tem cheiro de enxofre!!?? Ah, aí eu vi vantagem. E mais: o coisa ruim o desafia para um duelo de guitarra! E num bar de beira de estrada empoeirada no meio do nada do Mississippi! Hahaha Sensacional! Lúcifer não toca, apenas observa com classe e elegância um de seus demônios arrebentando na guita no duelo final com Macchio. Depois eu descobri que o demônio das guitarras foi interpretado por ninguém menos – eu ainda não o sabia também – que Steve Vai. A cena é antológica. Steve parece mesmo endemoniado. Toca com soberba, ousadia, ironia, olhar penetrante, sorriso sarcástico, deixando vazar em seu semblante um ar perigoso, fazendo solos infernais (não resisti ao fácil trocadilho). Assista aqui.

Não vou contar mais do filme. Essa curta narrativa é suficiente para entender o clima e que Robert Johnson vendeu sim a alma ao diabo... ah, isso eu não duvido nada. Vejam só. Na vida real Johnson gravou apenas um disco, entre 1936 e 1937. Um LP de 78 rotações. Eram 29 canções gravadas em 40 takes diferentes. Aquelas gravações primitivas por si só já geram uma aura de... não sei. Mas por que 29 e não logo 30 pra arredondar? Aí que está o mistério, meu irmão. A trigésima canção, a obra prima, o feioso colocou no bolso, para escutar por toda a eternidade nas profundezas do inferno. Duvida?

A capa do disco é hipnotizante. É uma das raras fotos do bluseman. Eu o tenho, já em versão CD, evidentemente. Cada vez que o pego em mãos fico travado a olhar os detalhes, com a sensação de que Johnson dará uma rápida piscadinha. As mãos de Johnson a empunhar o violão parecem garras. E, não é porque sou sugestionável, mas eu vejo a cara do belzebu bem grande na sombra da parede bem à esquerda de Robert.

 Clapton era grande fã de Johnson

Talvez você não concorde comigo, tampouco tenha ouvido falar nada disso, muito menos de Johnson, mas é bem possível que tenha escutado Robert Johnson na voz de Eric Clapton. A música se chama They’re Red Hot. (Red? Hot? Seria o inferno?)

Aliás, Clapton era grande fã de Johnson. Tanto que regravou as músicas do pai do blues. Estão no disco Me and Mr Johnson, cuja capa faz referência à capa original.

E a mais famosa de suas canções, Sweet Home Chicago, chegou à Casa Branca. Foi cantada pelo próprio... Não, errou, foi cantada pelo próprio Obama. A teoria da conspiração não teria ido tão longe assim. Ou teria?

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