Carnavalores e tentativas de domesticação e controle da festa

Para aqueles que não lembram, o Carnaval surgiu séculos antes do cristianismo sequer existir

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Seja aquele que, também de forma crescente, leva milhões aos blocos de rua sem cordões ou abadas, seja aquele que impulsiona escolas paulistas e cariocas na tentativa de resgate de suas tradições.Desde suas origens, na Antiguidade, os festejos carnavalescos mantêm uma relação conflituosa com os poderosos de plantão. Tentativas de domesticação e controle da festa por parte das elites nunca faltaram. Em tempos neoliberais, contudo, esta história tem assumido formas pra lá de absurdas. Nos últimos carnavais, não faltaram exemplos disto, como também, felizmente, são crescentes os exemplos da resistência para manter a festa ligada às suas raízes populares e rebeldes.

Para aqueles que não lembram, o Carnaval, que muitos têm como uma festa tipicamente brasileira, nasceu na Grécia Antiga, séculos antes do cristianismo sequer existir. Na época, as festas eram relacionadas aos deuses vinculados à colheita e à renovação da vida. Por isso, poderiam ser chamadas de Saturnais (Saturno), Dionisíacas ou Bacanais, referências a Dionísio ou Baco, o deus da festa, do prazer e do vinho, para gregos e romanos.

Festa tem origem na Grécia Antiga e ganhou o mundo, de Veneza ao BrasilQuando os cristãos chegaram ao poder na Europa, por volta dos anos 300 d.C, existiram várias tentativas para colocar um ponto final na festa evidentemente identificada com deuses pagãos e práticas sociais marcadas pelos excessos e desrespeito às regras. Foi assim que, por volta do ano 1000, surgiu o termo carnelevamen, que, em latim, quer dizer adeus à carne ou prazer da carne.

A ideia era simples: na impossibilidade de acabar totalmente com a festa popular, a Igreja a incorporou ao seu calendário, transformando o anárquico festejo pagão na terça-feira gorda, último dia em que os fiéis poderiam comer carne e fazer sexo antes da Páscoa.

De lá para cá, o Carnaval foi se reinventando século após século, de país em país. VirouMardi Grãs, em Nova Orleans, capital da música negra e do jazz, nos EUA; manteve a tradição das máscaras e fantasias em Veneza, na Itália; e, ao ganhar o tempero africano, o samba e o batuque, transformou-se, no Brasil, na festa que todos conhecemos.

Contudo, se é verdade que o carnaval resiste, também é um fato que, hoje, ao contrário de estarem preocupados em limitar os prazeres da carne, como na Idade Média, a elite está muito mais a fim de usar o Carnaval para defender seus interesses, propagar sua ideologia e transformar em espetáculo seus valores e visão de mundo. Um verdadeiro carnavalores.

Controle e resistência em terras tupiniquins

As tentativas de controle sobre os festejos se acirraram durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937/45)No Brasil, as tradições portuguesas, principalmente do entrudo (marcado pela prática de sair pelas ruas jogando água e todo tipo de sujeira em quem quer que passe), adentraram os cortiços, foram apimentadas pelas tias baianas que viviam no Rio, no começo do século 20, e rapidamente ganharam as ruas.

Como umas tantas outras desgraças autoritárias de nossa história, as tentativas de controle sobre os festejos se acirraram durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937/45). Foi no Rio de Janeiro, então capital federal, que, durante os anos da Segunda Guerra, Vargas impôs a idéia de samba-enredos temáticos e obrigatórios.

De lá até o samba-patrocínio, marca-registrada dos anos 2000, foi um pulo e os enredos das escolas se curvaram cada vez mais aos interesses dos poderosos, sejam os encastelados nas prefeituras e palácios de governo, sejam os donos do capital que se escondem por trás deles.

Nota 10 em exaltação do capital

Nada mais natural que, no decorrer dos séculos, as elites dominantes tenham investido pesado na tentativa de se apropriar da maior festa popular do planeta para fazer a única coisa para qual existem: levantar os lucros e propagar sua asquerosa visão de mundo. Foi assim na Idade Média, com a Igreja; foi assim com Vargas e durante a ditadura militar; e continuará sendo assim até que nos livremos da sociedade de classes.

Vale lembrar que são muitos os exemplos do passado, e ainda no presente, que indicam que o Carnaval é uma daquelas tradições milenares e realmente populares que, dificilmente, será totalmente controlada, independentemente de quem esteja no poder. Estão aí os afoxés, os blocos de rua, as marchinhas, as nações de maracatu e o carnaval de rua país afora para provar isto.

No entanto, seria de extremo idealismo e razoável ingenuidade não perceber que, numa sociedade mergulhada em valores neoliberais como o consumo, a celebração do individualismo e da ascensão social e a exaltação de tudo o que é privado, em detrimento do coletivo e público, a situação tenha chegado, de fato, a um ponto extremo. Em alguns dos principais polos carnavalescos do país, Rio, São Paulo e Salvador, em particular, as marcas dos interesses e da ideologia do Capital se fazem onipresentes.

Isso fica particularmente evidente nos enredos das principais escolas de samba, como também nas manifestações mais grotescas do que se convencionou chamar de axé music.

Repressão e carnaval: nada a ver

Uma das piores distorções que as elites têm imposto ao Carnaval é o clima opressivo e repressivo que cerca os festejos. Distanciando-se de qualquer coisa que possa lembrar as festas em homenagem a Baco, um libertário por definição, o que temos visto, além de episódios de repressão em todos os cantos, é exaltação de valores e aparatos repressivos.

Um dos exemplos mais contraditórios e polêmicos foi dado pela São Clemente, que reconquistou sua vaga no Grupo Especial do Rio em 2010 com um enredo em homenagem à nefasta Operação Choque de Ordem, idealizada pelo peemedebista Eduardo Paes, no Rio de Janeiro.
 
Por mais que alguns digam que o choque de ordem foi abordado de forma crítica, o fato é que, durante o desfile, acompanhado pelo secretário especial de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, convidado do camarote da diretoria, o que se viu foi uma ala representando prefeito, subprefeitos e secretários como xerifes legais e outra com meninos de rua de verdade que, segundo a própria escola, estavam ali para demonstrar como meninos e meninas de rua são acolhidos e recebem amparo amoroso desse ordenamento. A vitória da escola no Grupo de Acesso foi saudada pelo jornal O Globo com a manchete: “Quando o choque de ordem dá samba”.

Ainda naquele ano, na Bahia, como se não bastasse a baixa qualidade de músicas recheadas de baixarias, preconceitos e outras tantas marcas da ideologia dominante, os foliões que estiveram em Salvador ainda foram obrigados a ver cenas como a exaltação da força militar (das tropas de elite aos ocupantes do Haiti) feita por cantores como Xandy e Claúdia Leite, que se fantasiaram de milicos.

Outros carnavais ainda virão...

Apontar o quanto o Carnaval está contaminado pelos interesses e ideologia dominante não pode significar um repúdio à festa, aos milhões que nela se divertem nem às comunidades que se envolvem apaixonadamente na preparação da festa. Contudo, fechar os olhos para esta realidade não é a melhor forma de combater a situação. Pelo contrário.

Por isso mesmo, é importante valorizar toda e qualquer forma de resistência e manutenção do espírito rebelde do Carnaval. Seja aquele que, também de forma crescente, leva milhões aos blocos de rua sem cordões ou abadas, seja aquele que impulsiona escolas paulistas e cariocas na tentativa de resgate de suas tradições.

Afinal, são nestas manifestações que resistem os ecos dos cantos em louvor a Baco ou, ainda, sobrevivem a alegria e a celebração pela vida, a irreverência dos mascarados, a ousadia dos verdadeiros foliões, elementos fundamentais para que, no tempo certo, resgatemos o verdadeiro sentido do Carnaval.


Matéria publicada originalmente em pstu.org.br

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