Criador da música por biocomputador revela obra exclusiva ao Moozyca

Músico da Universidade de Plymouth fala sobre experimento musical com organismos pré-históricos

Eduardo Miranda coordena o Interdisciplinary Centre for Computer Music Research (ICCMR) da Universidade de Plymouth, na InglaterraNum dia desses, abro minha caixa de e-mail e encontro uma pasta zipada. Um dos arquivos se chamava “fraktal-miranda”. Ao executar um dos arquivos, ouvi uma música que me soou bastante diferente, bastante vanguardista, talvez uma obra serial? Era uma peça forte, que trazia uma rítmica e uma expressividade marcante.

Tratava-se de uma gravação em mp3 de uma peça do início da carreira de Eduardo Miranda, especialista em música computadorizada. A faixa foi enviada com exclusividade ao Moozyca, depois de ser digitalizada de uma fita cassete. A obra teria sido gravada em 1987 (há quase 30 anos), e talvez possa ser considerada uma das primeiras composições brasileiras geradas por um computador.

Desde pequeno, sempre gostei de brincar com sons. Lembro-me de passar horas ouvindo rádio fora de sintonia, imaginando que os ruídos eram vozes e músicas de outros planetas.

Atualmente, Eduardo Miranda trabalha na Universidade de Plymouth, na Inglaterra, onde coordena o centro de pesquisa Interdisciplinary Centre for Computer Music Research (ICCMR). Meu contato com ele começou ainda no início do ano, por conta de um trabalho que ele estava fazendo. Era algo bastante inconvencional: um dueto com um computador biológico, formado por organismos muito estranhos e pré-históricos. “Alguns cientistas acreditam que ele parece ser um dos primeiros organismos que apareceram no nosso planeta, antes mesmo do reino animal”, explicou Miranda. Alguns leigos (como eu) chamam esses “bichos” de fungos, mas, cientificamente, são seres de outra natureza.

Pesquisando mais sobre o trabalho do brasileiro, percebi que se tratava de um dos mais representativos músicos contemporâneos e experimentais e um dos precursores da música computadorizada no país. Ao meio de composições, viagens a trabalho e apresentações musicais na Europa, Eduardo Miranda achou um tempinho para o Moozyca. A entrevista foi incrível e você pode conferir abaixo.

Como foi que você resgatou a música Fraktal, que enviou com exclusividade ao Moozyca?

Recentemente, quando estava jogando umas coisas velhas no lixo, eu achei um cassete com a gravação de um estudo de música computadorizada inteiramente gerada por um programa, que fiz para o Apple II, na linguagem Basic, chamado “Fraktal”. Não me lembro exatamente a data da gravação, mas acho que é de 1987. Fiquei surpreso que deu para tocar o cassete, pois estava bolorento e úmido.

Qual o conceito de música computadorizada?

Ao meu entender, música computadorizada é música gerada por um computador. Esse conceito surgiu no século passado, mais ou menos no final década de 50, quando alguns cientistas e músicos na Austrália e nos Estados Unidos tiveram a ideia de programar computadores para tocar melodias. Nessa época, essa programação era apenas para codificar uma sequência de comandos para o computador produzir bips num alto-falante embutido na máquina. Mas, na medida em que os computadores evoluíram, a ciência da computação também evoluiu e assim surgiu a área de Inteligência Artificial (IA). Cientistas e matemáticos da área de IA começaram a desenvolver métodos de programação para os computadores realizarem tarefas mais sofisticadas, algumas das quais consideradas inteligentes, tais como analisar informação para fazer diagnósticos automaticamente e até mesmo manter um diálogo com um interlocutor. Então foi neste contexto que cientistas começaram a colaborar com músicos para desenvolver métodos de programação para os computadores gerarem música automaticamente. Quero dizer, programar computadores com conhecimento de teoria musical para compor e não somente tocar sequências pré-programadas de sons ou notas musicais. Várias técnicas de programação foram desenvolvidas para gerar música automaticamente. Eu mesmo desenvolvi alguma coisa nesse sentido, mas, para dizer a verdade, acho um pouco sem graça uma música feita inteiramente por computador. Para mim, o interessante mesmo é usar o computador como um gerador de ideias que eu possa incorporar no meu trabalho. Muitos compositores que conheço usam o computador dessa maneira. Isto é, como uma ferramenta a serviço da criatividade e não como um substituto do ato criativo.

E o que é Biocomputer Music?

A primeira vez que toquei com o computador biológico foi uma emoção muito curiosa, não tenho palavras para expressar.

Biocomputer Music é um conceito novo, que recentemente inventamos no meu laboratório de pesquisa na Universidade de Plymouth, na Inglaterra. Naturalmente, a tecnologia da computação está em constante desenvolvimento e novos tipos de computadores estão sendo desenvolvidos em vários centros de pesquisa pelo mundo. Nós estamos trabalhando no desenvolvimento de um computador musical interativo, usando circuitos biológicos. Compus uma peça chamada “Biocomputer Music” para testarmos os primeiros protótipos do nosso computador biológico. Digamos então que Biocomputer Music é música feita com um computador biológico.

Como foi fazer um dueto, recentemente, com um fungo (o Physarum)?

O dueto que você menciona é a composição “Biocomputer Music” que mencionei na resposta anterior. O dueto foi feito comigo e um computador biológico e não com um “fungo” propriamente dito. O nome científico do organismo que estamos usando para implementar os circuitos biológicos é Physarum polycephalum. Na verdade, este organismo não é um fungo, mas sim um organismo muito estranho. Não se trata de um animal, nem de um vegetal, nem mesmo de um fungo. É um organismo pré-histórico. Alguns cientistas acreditam que ele parece ser um dos primeiros organismos que apareceram no nosso planeta, antes mesmo do reino animal. O interessante é que ele apresenta propriedades elétricas que podem ser controladas e programadas. Não vou entrar nos detalhes técnicos aqui, pois tomaria muito espaço. Em resumo, é possível usá-lo como dispositivo de memória, como uma resistência eletrônica e até mesmo como um transistor.

Qual a sensação de tocar com um computador biológico?

A primeira vez que toquei com o computador biológico foi uma emoção muito curiosa, não tenho palavras para expressar. Eu já tinha usado computadores muitas vezes para tocar comigo em tempo real, mas com o computador biológico a sensação foi bem diferente. Eu sabia que estava tocando com um computador cuja inteligência é alimentada por uma espécie biológica, digamos um organismo vivo. Algumas pessoas que assistiram ao primeiro concerto acharam o trabalho meio macabro. Já outros disseram que eu parecia uma espécie de Frankenstein musical. Eu pessoalmente não acho que seja um trabalho macabro, muito pelo contrário.

Esse me parece um dos grandes projetos vanguardistas de música contemporânea. Como a crítica reagiu a este seu feito?

A primeira apresentação pública que fizemos fez parte de um festival de música contemporânea que acontece em Plymouth anualmente. Anunciamos nos jornais e no website do festival que iríamos tocar um dueto com um computador biológico, o primeiro do gênero, e tudo mais... Mas não esperávamos que isso iria atrair tanta atenção. Teve uma fila enorme na porta do teatro para ver. Tivemos que repetir o recital três vezes porque não cabia todo mundo no teatro ao mesmo tempo. Teve gente que não viu e foi para casa decepcionado. Vieram críticos de Londres e de outros lugares da Europa para ver. Alguns compararam o meu trabalho com o trabalho da famosa Björk, outros com o trabalho de John Cage, e assim por diante. Claro que fiquei contente com os elogios, mas confesso que não esperava tanta atenção.

O dueto foi feito comigo e um computador biológico (...) com um organismo muito estranho. Não se trata de um animal, nem de um vegetal, nem mesmo de um fungo. É um organismo pré-histórico.

E você acredita que há uma relação com a música de John Cage, criador da música aleatória?

Originalmente, não tinha pensado em nenhuma relação desse trabalho com a música de John Cage. Foi um jornalista da BBC que sugeriu a relação, pois a obra tem um componente semi-aleatório. Além disso, John Cage era fanático por cogumelos. Inclusive, ele foi co-fundador da New York Mycological Society, um clube de estudiosos e apreciadores de cogumelos. O jornalista fez a associação entre Physarum polycephalum e cogumelos (que na verdade é um fungo) e chamou o trabalho de cageano. Como eu sou fã de Cage, obviamente eu fiquei muito feliz com este comentário.

Como ocorre o dueto com o computador biológico?

Um microfone capta o que eu toco no piano e converte os sons em sinais elétricos que são enviados ao circuito biológico. O circuito é programado para produzir respostas aos sinais elétricos. Naturalmente, as repostas também são em forma de sinais elétricos que são enviados de volta ao piano.  O computador biológico toca o piano – o mesmo que eu estou tocando – por meio de eletroímãs. Eu instalei eletroímãs dentro do piano, posicionados perto das cordas, que vibram as cordas produzindo um som etéreo; é o som do piano sem o ataque inicial dos martelinhos batendo nas cordas.

Musicalmente, um organismo vivo segue padrões ou é um improviso musical mais desprendido?

A peça “Biocomputer Music” não é improvisada, mas nem tampouco é totalmente rígida. O que eu toco tem uma partitura fixa, mas a resposta do computador biológico é imprevisível. Quero dizer, semi-imprevisível, pois as respostas são baseadas no que eu toco.

Que projeto experimental mais te impressionou até o momento?

Cada trabalho novo é uma experiência emocionante para mim. É difícil escolher um em particular. Obviamente, como estou atualmente trabalhando no desenvolvimento do computador musical biológico, o que estou fazendo no presente período é muito impressionante para mim. Mas eu diria que um dos projetos mais memoráveis foi quando eu dividi o palco do teatro Queen Elizabeth Hall em Londres com Jarvis Cocker, da banda Pulp, em 2011, no show intitulado Electronica III. Na ocasião, a Orquestra Sinfônica da BBC de Londres tocou minha obra Sacra Conversazione para orquestra e um coral de cantores sintetizados.

O que foi o projeto “Corpus Callosum”, imitando a conexão entre os dois hemisférios do cérebro humano?

Em 2012, fui ao centro de neurociências da Universidade de Nova Iorque para escanear meu cérebro num escâner de ressonância magnética, enquanto ouvia o segundo movimento da sétima sinfonia de Beethoven.  Depois disso, desconstruí a partitura do movimento de Beethoven, compasso por compasso. Então programei um computador para usar os dados escaneados do meu cérebro para modificar, ou distorcer, o material musical desconstruído. Depois, implementei um outro programa para construir novas passagens musicais, novas melodias e ritmos a partir destas modificações. Usei esse material para compor outras peças sinfônicas, e “Corpus Callosum” é uma delas. Quem conhece a sétima sinfonia de Beethoven certamente reconhecerá as semelhanças entre o segundo movimento e “Carpus Callosum”. Não tenho gravação disponível desta obra, mas tenho a gravação de outra que foi composta usando o mesmo processo: “Beethoven Deviations”.

Como foi o processo de composição de “Sounds from Underground” com a pianista Luciane Cardassi 

Luciane é uma pianista brasileira formidável, atualmente vivendo no Canadá.  Em 2013, tive a feliz oportunidade de ir ao Canadá como compositor em residência no Banff Centre para trabalhar com Luciana exclusivamente nesta composição. Ela me ensinou várias técnicas de interpretação de música contemporânea para piano e mostrou como elas foram usadas por vários compositores, tais como Karlheinz Stockhausen, Luciano Berio e Salvatore Sciarrino. “Sounds from Underground” é um estudo onde exploro estas técnicas e outras coisas mais. Por exemplo, foi nessa composição que testei pela primeira vez os eletroímãs que mais tarde foram adaptados para usar com o computador biológico. A obra é para piano, três violoncelos e um contrabaixo, e tem três movimentos: “Feelings Unheard of”, “Upheaval”and “Aftermath”.

Em um outro experimento nomeado “Activating Memory”, você usou eletrodos para extrair informações do cérebro de quatro pessoas. Como essas informações foram transformadas em música?

A composição “Activating Memory” faz parte de um projeto que venho desenvolvendo com vários colaboradores já faz quase dez anos. É uma peça para oito participantes: um quarteto de cordas e 4 pessoas usando um instrumento musical extraordinário chamado “brain-computer music interface”, ou BCMI; traduzido para o português como interface musical cérebro-computador, ou IMCC.

Nós fizemos um concerto com quatro pacientes com paralisia muito severa, causada por derrames e acidentes. Eles perderam o movimento do corpo, mas são lúcidos e inteligentes. Foi uma emoção muito grande para nós oferecer a estes pacientes a oportunidade de participar de um conjunto musical, controlando um quarteto de cordas!

Sabemos que neurônios emitem sinais elétricos, cuja intensidade varia de acordo com as tarefas realizadas pelo cérebro. O IMCC que construímos no meu laboratório usa uma toca com eletrodos para medir estes sinais cerebrais na cabeça do usuário. O sistema analisa estes sinais e usa os resultados para controlar um sistema que controla a geração de partituras musicais. Para a composição “Activating Memory”, cada uma das pessoas com o IMCC gera a partitura para um dos instrumentistas do quarteto de cordas, para ler à primeira vista e tocar em tempo real.

A composição funciona como uma espécie de dominó musical. Os usuários do IMCC usam comandos cerebrais para selecionar frases musicais que eu preparei cuidadosamente para que elas soem com coerência quando combinadas, quatro de cada vez, uma para cada instrumento do quarteto. Os usuários compõe a música em tempo real, como se fosse um jogo entre eles: um deles pode fazer o violoncelo, tocar alguma coisa dissonante, enquanto que outro pode fazer a viola tocar uma frase mais rápida, e assim por diante. Cada vez que é tocada, vai soar diferente, pois existem milhares de combinações e sequências possíveis.

Este projeto faz parte de uma colaboração com um hospital em Londres que cuida de pacientes paralíticos. Nós fizemos um concerto com quatro pacientes com paralisia muito severa, causada por derrames e acidentes. Eles perderam o movimento do corpo, mas são lúcidos e inteligentes. Foi uma emoção muito grande para nós oferecer a estes pacientes a oportunidade de participar de um conjunto musical, controlando um quarteto de cordas!

Como você começou no mundo da música? Como foi o seu desenvolvimento do início até o momento?

Desde pequeno, sempre gostei de brincar com sons. Lembro-me de passar horas ouvindo rádio fora de sintonia, imaginando que os ruídos eram vozes e músicas de outros planetas. Gostava de gravar besteiras num daqueles gravadores de fita cassete portáteis e ouvir a gravação com velocidade alterada. Uma vez o papai Noel me trouxe uma eletrola e uns disquinhos de estorinhas infantis, mas eu me lembro que já de cara eu comecei  a rodar o disco da Lebre e a Tartaruga com o dedo, mais rápido, mais lento, na direção contrária, e tudo mais.

Depois, já na adolescência, aprendi um pouco de eletrônica com meu pai e montei vários aparelhos para produzir efeitos sonoros, sirenes, buzinas, etc. Daí veio a época da discoteca, nos anos 1970 e, naturalmente, entrei na onda de animar festas como DJ, e assim por diante... Mais tarde, estudei informática no nível universitário e trabalhei por uns tempos como analista de sistemas para uma empresa carioca. Mas não estava muito contente com aquela profissão. Então decidi largar o emprego e voltei para a universidade. Consegui entrar no curso de música no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Mas não cheguei a terminar o curso, pois estava interessado em música clássica contemporânea, música experimental, música eletroacústica, etc. E não tinha nada disso no currículo. No fim, ao invés de assistir as aulas, acabei passando a maior parte do tempo na biblioteca, que por sinal era muito boa, estudando outras coisas por conta própria. Fiz amizade com professores do programa de pós-graduação em Inteligência Artificial que me ajudaram a montar uma placa MIDI para um computador Apple II que estava disponível na escola de música. Lembro que nesta época existia a lei da informática que proibia a importação de equipamento. Era um verdadeiro atraso. Tive que fazer minha própria placa MIDI e toda a programação a partir do nada, para poder conectar no computador um teclado da Roland (Juno 106). Foi assim então que comecei minha carreira com música computadorizada na década de 1980.

Para concluir, qual a definição de música que mais faz sentido para você? 

Gosto muito da definição do compositor Edgard Varèse, visionário e pioneiro da música eletrônica, nascido na França no final no século 19. Ele diz que “música são sons organizados”. Músicos organizam sons para criar música. E, pelo que dizem os cientistas, o cérebro dos ouvintes também organizam representações neurais dos sons que chegam aos seus ouvidos para criar música em suas mentes.

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