“O hip hop é uma religião”, diz Zibordi, jornalista e pesquisador

Doutor da USP fez tese sobre a cultura hip hop paulistana e falou com exclusividade ao Moozyca

Ainda alucinado com a filha de quatro anos de idade, joia do deserto ou pérola do mar na vida de um pai deslumbrado, o jornalista e agora doutor em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Marcos Zibordi, conversou com o Moozyca sobre sua tese, recém-saída do forno, “Hip Hop paulistano: narrativa de narrativas culturais” – que tentou abordar, de forma transdisciplinar e integrada as quatro manifestações artísticas (break, rap, DJs e grafite) e o discurso da cultura hip hop na cidade de São Paulo.

O conhecimento orienta a postura de praticantes e admiradores fomentando uma comunidade cultural sectária e dogmática similar às religiões de salvação

Pra entender melhor o trampo, fomos à casa dele, na zona oeste, e trocamos muitas ideias - ele fala até umas horas... O jornalista presta serviço de monitoramento e crítica de conteúdo ao site UOL e é professor da FIAM-FAAM Centro Universitário, onde dá aulas na graduação e no Mestrado Profissional em Jornalismo.

Segundo Zibordi, durante suas pesquisas para a elaboração do projeto, que partiu de um mapeamento da produção científica da USP, Unicamp e Unesp disponibilizadas na internet, ele não encontrou nenhuma pesquisa que tratasse dos elementos hip hop de maneira integrada. “Há uma tendência mutiladora ao se estudar o hip hop. Mais de um terço dos trabalhos falam somente de rap; destes, a maioria tem como tema principal os Racionais MC’s, que são, sim, muito importantes. Mas não representam sozinhos nem totalmente o rap, muito menos dão conta de todo o movimento hip hop”. O jornalista aponta que, depois do rap, o tema favorito dos pesquisadores é o grafite; em terceiro lugar aparece a dança; e o trabalho dos DJs não foi abordado em nenhum dos 110 trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses consultados pelo pesquisador.

“Alguns entrevistados da minha pesquisa afirmaram categoricamente que não existe hip hop em São Paulo"

Além do break, grafite/pichações, rap e DJ, o jornalista discutiu em sua tese o chamado quinto elemento do hip hop, bastante difundido entre os praticantes da cultura. Trata-se do “conhecimento”. “Neste caso, o conhecimento é traduzido nos enunciados ligados aos referenciais culturais dos adeptos do hip hop. Em suma, é o discurso que envolve os quatro elementos. E este discurso é, literalmente, religioso”.

O pesquisador toma as manifestações corpóreas, pictóricas, rimadas e musicais como narrativas e o discurso ligado ao quinto elemento, o conhecimento, como religioso. “As narrativas, em geral, são líricas e poéticas nas imagens, épicas nas letras de rap, dramáticas na dança e paródicas nas mãos dos DJs. Enquanto isso, o conhecimento orienta a postura de praticantes e admiradores fomentando uma comunidade cultural sectária e dogmática similar às religiões de salvação”.

Além das discussões sobre essa “narrativa de narrativas culturais” e sobre o elemento religioso, a tese levantou diversas outras questões, entre elas a própria existência da cultura hip hop em São Paulo. “Alguns entrevistados afirmaram categoricamente que não existe hip hop em São Paulo”.

Entretanto, Zibordi lembra do semioticista Yuri Lotman, segundo o qual, nos processos culturais, “ao ingressar em um todo como uma parte, a individualidade não deixa de ser um todo. Assim, a relação entre as partes não tem um caráter automático”.
Xiii, eis a polêmica, amigos, cabeçuda. Escolha um lado, ou não. Nós, do Moozyca, ficamos por aqui.

Mas se você quer saber mais sobre as narrativas do hip hop paulistano, baixe aqui a tese completa do Zibordi.

É noiz.

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