Quer ouvir Cúmbia? Não vá para Colômbia!

Moozyca embarcou na difícil tarefa de ouvir cúmbia na capital mundial do gênero

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Pense naquele cara que sempre esteve acostumado a ouvir a música latina de raiz (mixada ou não) em diversas festas de São Paulo. Era algo até um pouco surreal, porque, nos últimos anos, a música latina está em alta na Paulicéia, principalmente a cúmbia. Era assim na antiga Trackers – naquela varandinha marota que dava para o Largo do Paissaindu –, onde a cúmbia, a música balcânica, o funk, o house, o afrobeat e a música brasileira tinham o seu lugar cativo.

Mesmo hoje, basta entrar em uma dessas festas descoladas e com uma proposta tropical, que você vai ver a cúmbia rolando solta. Continua assim em boa parte das baladas de São Paulo, desde o Mundo Pensante, no Bexiga, até as festas itinerantes da Voodoohop ou da Calefação Tropicaos, decoradas com véus brancos e chitas de araras. Para o paulistano, a cúmbia está aí como as coxinhas estão nas estufas dos botecos e o pastel nas feiras de rua.

Daí você vai para a Colômbia, meu amigo de boa índole, amante de Gabriel Garcia Marquez e da cúmbia, a música nacional desse país. Então, todo esperançoso, você chega em Bogotá em um domingo e já se depara com um grande problema: “No hay fiestas hoy”, diz o rapaz do hostel onde você vai se hospedar. Você fica indignado e pergunta: ¿“Por qué no hay fiestas a los domingos”? E ele te responde: “Porque mañana todos trabajan”.

Nesse momento, a vontade do cidadão é pegar as malas e voltar para o aeroporto; tentar pegar um voo para Nova Iorque, Berlim, São Francisco, ou mesmo voltar para São Paulo. Mas, então, você lembra que está com a grana curta, não tem um centavo no bolso e que, se foi até lá, era para ouvir uma boa cúmbia e tomar umas birras, como fazia na Praça da República!

Então, você decide sair para andar no bairro da Candelária, com a ideia de que o cara do hostel estava muito louco com a erva que tinha fumado, até porque não era um colombiano, mas sim um alemão que não devia conhecer bulhufas da capital colombiana. Nessas andanças, você encontra um monte de turistas, moradores de rua, taxistas, prostitutas – toda a gente parada no meio da praça da Candelária, sem ouvir música e sem beber nada.

Você decide comprar uma cerveja para se distrair, enquanto desce uma das ruas que levam ao centro da cidade, e é parado por uma viatura da polícia, que te manda jogar a cerveja fora, porque ali é proibido beber na rua. Você se desfaz da sua garrafa e encara o policial bem no fundo dos olhos e pergunta: “Dónde están lãs fiestas de cúmbia”? Daí ele te mira com aqueles olhos gentis e te diz que não há nenhuma cúmbia na cidade. “Mañana todos trabajan”.“Cúmbia no se encuentra acá. Es música de viejos”

Bogotá é muito conhecida pelas chamadas rumbas, que são baladas de salsa, reggaeton e merengue. Pero..., não aos domingos, nem às segundas, nem às terças.... Colômbia tem uma lei que obriga que as casas noturnas fechem cedo (às 2h da manhã), por isso é normal as pessoas saírem cedo de casa, lá pelas 21h.

Descrente do cara do hostel e do policial, você experimenta dar uma volta pela cidade com seu parceiro de viagem e passa pelos lugares indicados por gente da cidade. Vai ao Palos de Moguer, que está fechado. Vai à Zona T, que mais parece um shopping ao céu aberto que uma área de festas. Tenta chegar ao bar BBC (Bogotá Beer Company), onde se faz ótimas cervejas artesanais, mas daí você se perde e vai parar perto do seu hostel. Pergunta a uma pessoa na rua onde há uma cúmbia, e ela diz: “Cúmbia no se encuentra acá. Es música de viejos”. Não há deixa melhor do que essa para ir para a cama.

Segunda-feira em Bogotá é um porre (no mal sentido) e a terça-feira é o dia em que você decidiu sair dessa cidade de gente séria para ir a busca do bangue. Como já está traumatizado com as grandes cidades, resolve pular Medellín, o que depois constata ter sido uma péssima decisão, assim como foi uma má escolha não ter ido a Cali, a capital da salsa.

Seu próximo destino é Cartagena de Índias. No avião, você vai ouvindo um som, imaginando aquele buraquinho esquecido no meio da cidade, com um pessoal fazendo uma cúmbia pesada. Imagina que vai ouvir Lucho Bermúdez, Ondatropica, Frente Cumbiero... Mas nada disso, amigo. Nas festas de Cartagena, você ouve música argentina, o reggaeton – a herança das boates de Buenos Aires. É então que o seu parceiro de viagem parece te falar a coisa mais sábia naquele momento: “A América Latina se rendeu mesmo a essa febre. Só o Brasil ficou imune, temos sorte”.

O brasileiro tem sorte. Quando o assunto é música, podemos nos considerar bastante sortudos. Em Cartagena, você até vai achar uma salsa boa – o bar Havana é um exemplo –, mas não ouvirá uma cúmbia de verdade. Vai fazer o mesmo que fez em Bogotá, sair caçando um botequinho com uns velhos tocando alguma música de raiz, mas se frustrará e voltará ao hostel, onde beberá tequila mexicana e ouvirá música da Jamaica.

Daí você vai para o Parque Nacional de Tayrona, um verdadeiro paraíso natural, mas lá as luzes se apagam cedo, às 21h, quando todos vão para suas barracas. Você vai dormir na sua rede, no topo de uma montanha, vai passar frio à noite toda e se contentará com a caixinha de som portátil do seu amigo, que tocará uma versão do Gilberto Gil de “Sina” – que, aliás, consegue superar a gravação original do Djavan. No outro dia, vai bater uma indignação maior, você começará a perguntar a todo mundo se é normal um país jogar no lixo uma tradição musical tão vasta para ouvir reggaeton. A maioria das pessoas te olhará com indiferença, dirá que a cúmbia existe sim, mas está nos pequenos pueblos. Daí você perguntará “onde”, “onde estão esses pueblos”? E ninguém saberá te responder.

Você vai a Santa Marta, uma cidade no caminho de volta à Cartagena (algo como Santos da Colômbia). Vai caminhando pela praia e começa a fazer o balanço da viagem. Você conheceu muita gente, viu uma natureza incrível, tirou todo o estresse de São Paulo... Até que foi uma viagem bacana. Você reclama, mas a culpa foi sua de criar muita expectativa acerca da cúmbia!

Você vai se conformando com a ideia de não ouvir cúmbia, já até se conformou, na verdade, quando... Você avista lá longe um grupinho tocando. É cúmbia, carajo! Você corre e, quando chega, vê que é um grupinho de músicos bastante velhos. O cara do acordeom está tão arcado que parece ter o tamanho do seu próprio instrumento. Você percebe que a banda (que não toca para ninguém) está performando com a alma. Você relaxa, a música é linda e a praia está quente, com uma lua enorme no céu. Só fica uma dúvida: “será que quando voltar a São Paulo ainda haverá samba”?

 

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