Falta mulher no rock’n’roll (menos no baixo)

Me valerei do chavão para dizer que, sim, elas trazem um puta charme à música

D'Arcy Wretzky comandou a cozinha do Smashing Pumpkins como ninguém jamais poderia

Falta mulher no rock’n’roll. Por isso mesmo, quando elas entram em cena, são tão marcantes. Me valerei do chavão para dizer que, sim, trazem um puta charme à música. E ninguém foi tão charmosa na história do rock quanto D'Arcy Wretzky. Feministas não me compreendam mal, mas ela comandou a cozinha do Smashing Pumpkins como ninguém jamais poderia! Fez a cama para que Billy Corgan desfilasse sem empecilhos seus versos agressivos à multidão. Mal-agradecido.

Não se dê ao trabalho de buscar no Google imagens atuais dela. Está horrível. Resultado óbvio de anos de abuso de drogas. Fiquemos com a lembrança daquela jovem rebelde loira empunhando um contrabaixo com autoridade da mulher mandona. D'Arcy no palco tocava com ares de "ai me deixa quieta que to irritada! Não fala comigo!" Vocês sabem do que estou falando. A maioria delas são sensualmente talentosas quando estão bravinhas. Ouvia Smashing Pumpkins. Havia Smashing Pumpkins. Mas não via Smashing Pumpkins. Não tinha YouTube. Exceto quando a MTV resolvesse transmitir algo. O que permitia minha imaginação voar solta. Hoje vasculhando na rede sei que eu estava certo. D'Arcy sustentava os Pumpkins com originalidade, classe e elegância. Se a mulher roqueira não fosse o tipo vou-ser-vocalista-quero-que-todos-olhem-pra-mim, ela tinha destino certo: o baixo. Gwen Stefani que me perdoe, mas as baixistas são mais legais (pra não dizer outra coisa). E carregam a banda nas costas. É fácil ter atitude com microfone na mão e a banda inteira tocando pra você se libertar. Quero ver ter atitude empunhando um contrabaixo.

Sonic Youth ganhou fãs pela sonoridade estranha e ousada. Mesmo argumento de quem não sacou qual era a deles. Mesmo argumento de quem está na dúvida até hoje (eu). Não importa. Ao ver Kim Gordon ao vivo você vai pensar: "humm... Deixa eu prestar mais atenção nisso". E olha que ela nem era tudo isso (e aqui não me refiro às suas qualidades musicais). Mas... Não sei... Alguma coisa acontece com as baixistas. Ou será que sou eu?

As meninas da Bangles se revezavam no baixo e nas guitarras lá nos anos 80. Isso me confundia. Não sabia pra onde direcionar minha atenção. Walk Like an Egyptian tinha uma sensualidade colegial. E a música era muito boa mesmo. Mas aí elas vieram com aquela coisinha romântica de Eternal Flame e eu meio que me enchi o saco. Olhando em retrospectiva isso agora me faz entender que a baixista,baixista mesmo, dessas a que refiro, têm impacto completamente diferente em banda onde só toca homem. Se não, vejamos. Quem é mesmo a baixista da Hole? Não sei. E a vocalista? Courtney Love, óbvio. Viu só? Elas competem até nisso. O mundo é muito grande pra ter duas mulheres na mesma banda. Uma só já basta. E no baixo. Mandando geral. Se bem que quatro punks funcionavam bem na L7. No quinteto The Runaways, também. Embora.... Quem era mesmo a baixista? Não. Joan Jett era guitarra e vocal.

Você pode dizer que Kim Deal tinha uma atitude espontânea, sem forçar a barra, no Pixies e, depois, tocando com os Breeders. Mas ela não era nada sexy. Minha consciência ética está quase me pedindo pra falar das baixistas técnicas, professoras, mega profissionais da música. Ok, tem aquela que excursionou com David Bowie. Toca muito! Esqueci... Vou ao Google e já volto. Só um segundo. Ah, sim. Gail Ann Dorsey. Sensacional! E tem aquela outra com cara de novinha menina-moça, que se transforma em gigante na arte da música. Peraí. Google outra vez. Achei: Tal Wilkenfeld. Essa menina é genial. Foibaixista dos Alman Brothers, Chick Corea e Jeff Beck. Ta bom ou quer mais? Procurem aí a apresentação dela no Crossroads 2007, festival organizado por Eric Clapton, em Chicago. Espetacular.

E no Brasil? Ah, no Brasil estamos um tanto atrasados nisso também. Praticamente não tem banda com baixista mulher. Tinha As Mercenárias, punks paulistanas lá no começo dos anos 80. Mas era banda de mulheres, à exceção do guitarrista Edgar Scandurra. Sim, o mesmo do Ira! Ninguém mais lembra disso. E na onda new wave surgiram as meninas do Sempre Livre. Bem chato. Depois, nada, um vácuo.

Eis que, nas últimas semanas, descobri Lena Papini, a baixista que formou a natimorta A Banca com os ex-Charlie Brown Jr., e agora está em turnê com a banda tributo Urbana Legion. Toca demais! Baixista de mão cheia, sabe ocupar os espaços com inteligência musical. Tem postura e agressividade. Comanda o seu quadrante sem aceitar interferências. Humm... D'Arcy style!

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