"Fazer arte exige mais do que bater cartão", afirma regente

Pesquisadora de coros afirma que todos podem cantar. Mas é preciso paixão

"Cada coletivo possuiu características específicas, que devem ser estimuladas pelo regente no momento do ensaio"Você já se imaginou cantando, mas desistiu por achar sua voz desafinada? Pois bem, não desista! Para Paula Passanante Castiglioni, regente, pianista e professora de música, qualquer pessoa pode e deve cantar, mesmo sem qualquer experiência musical anterior. O segredo é se entregar aos ensaios com disciplina e paixão à música.

Fazer arte exige além de “bater cartão”. Precisa dar frio na barriga e transformar pelo menos de raspão quem ouve.

Na entrevista ao Moozyca, Paula fala sobre a importância dos coros não profissionais e critica o enfraquecimento das academias em termos de produção cultural, por conta de alteração na legislação apoiada por Geraldo Alckmin (PSDB), que retira recursos de universidades paulistas, como USP, Unicamp e Unesp.

Como é reger um coro amador?

Percebo que o senso comum apoia a ideia de que coros não profissionais dependem de gestos largos do regente, balbucio do texto e brutas marcações rítmicas. Não! O gestual de qualidade funciona tanto para a Filarmônica de Berlim quanto para o coro da escola. As técnicas e padrões de regência devem prevalecer a despeito dos níveis musicais dos cantores. O que muda em relação a um coro amador é o tipo de treino planejado pelo regente, a maneira como vai ensaiar para alcançar os resultados esperados para aquela categoria de grupo artístico.

Paula Passanante Castiglioni é regente, pianista e professora de músicaCada coletivo possuiu características específicas, que devem ser estimuladas pelo regente no momento do ensaio. Para isso, ele precisa planejar, e muito. Depende da etapa antecedente ao ensaio que o músico – no caso o profissional que está à frente, o regente –, constrói as ideias de sonoridade para aquele dia. E, com o “saldo” do ensaio feito, traçará novas estratégias para o próximo ensaio. É no ensaio que o regente executa a real performance musical. Claro que o concerto é importante. Mas uma apresentação é resultado de intimidade artística: uns com os outros e de todos com aquele que rege e molda o som resultante.

Por que o termo “amador” está errado?

A questão não é o termo, mas sim o tremendo mau uso que é feito dele. No cenário musical brasileiro, o grupo “amador” é rejeitado e desmerecido. A maioria dos coros ao redor do mundo são amadores, ou seja, realizam a atividade do canto por satisfação, amam cantar.

O que é preciso para se sair bem no coro?

De fato, antes da execução sonora, precisa existir paixão e doação... Na minha humilde opinião, fazer arte exige além de “bater cartão”. Precisa dar frio na barriga e transformar pelo menos de raspão quem ouve. Gosto de lembrar a Elis Regina e o Miele. Diziam que “música é sacerdócio”. E não “amador aqui profissional ali”. Desperdiçamos energia preciosa com supérfluos. Penso em cooperar com o que está ao meu redor e alcance: sendo pianista e regente. Se eu compartilhar o que sei com interessados em cantar, podem melhorar e se dispor. Talvez até incorporarem a música em suas vidas. Seja como ouvintes conscientes ou e até mesmo como músicos instrumentistas.

Como estão os coros em São Paulo e no país? Faltam recursos ou divulgação?

Há poucos coros profissionais no território nacional. Porém, o cenário vem ganhando força com algumas novidades, como Coro da Academia Osesp, Academia São Pedro, entre outros, que são formados por jovens cantores, apoiados por uma bolsa. Em São Paulo, há aqueles conhecidos e tradicionais coros da cidade: Coro da Osesp, Coro Lírico do Teatro Municipal, Coro da Orquestra Experimental de Repertório. Porém, se apresentam em pouca proporção. Em compensação, o número de coros acadêmicos (pertencentes à universidades e institutos) estão aumentando em quantidade e qualidade musical. O que não significa que ganham divulgação ou destaque. Sempre falta apoio financeiro. Os concertos acontecem, em sua maioria, por meio de esforços das universidades, instituições independentes e de seus componentes. Se falta recursos em São Paulo, motriz cultural do Brasil, imagine em outros estados.

Por que desse enfraquecimento?

A parcela de 9% do ICMS, que era obrigatoriamente destinada às universidades públicas paulistas, foi apoderada pelo atual governo paulista. Agora, eles mandam o que querem à universidade. A Emesp e EMM tiveram mais de 60% dos funcionários demitidos neste ano. O Coro da EMMSP (Escola Municipal de Música de São Pãulo), Emesp (antiga ULM), Coro do Conservatório de Tatuí, Coro de Câmara da UNESP, Coralusp, Coro da Eca, Collegium Musicum de São Paulo, CantorIA, Coro de Câmara da Unicamp, Coro da Cultura Inglesa de São Paulo são grupos semiprofissionais, compostos, em sua maioria, por estudantes de graduação em música, os quais movimentam nossa cidade com concertos gratuitos, de enorme qualidade.

Para dar um exemplo, cantei sete anos no Coro de Câmara da UNESP, sob a regência do caro professor Vitor Gabriel. E durante anos seguidos viajamos para cidades históricas de Minas Gerais, fazendo pesquisa de campo, cantando acompanhados por órgãos históricos - algo que foi fundamental no meu processo musical. Fora de São Paulo, os coros assegurados são aqueles pertencentes a escolas regulares, escolas de música ou universidades.

Quais são os principais promotores de coros?

Em qualquer ambiente de convívio coletivo, pode-se estabelecer um coro. É um veículo eficaz para o aprendizado musical, pois aprimora os elementos da música gradualmente. Iniciando pelo canto, nosso instrumento original de fábrica. Claro que a mínima infraestrutura é fundamental. Muitas vezes os regentes ensaiam, varrem a sala, tocam piano, cantam e, por último, regem. Não é nada incomum encontrar ensaios assim. Eu mesma realizo vários, o que está errado em relação ao acúmulo de tarefas. Um coro deveria contar com um pianista, um preparador vocal e o regente. O que acontece na vida real é que o regente desempenha todos esses papéis simultaneamente, sem parcimônia, deixando algum item a desejar. Promover a formação de um coro é o trabalho inicial. Porém, mantê-lo é um desafio. É um organismo, composto por humanos sedentos por direcionamento musical. E foi por esta razão que citei no início: um coro acontece onde há convívio. Empresas, escolas, sindicatos, qualquer instituição religiosa, clubes, associações, etc. É fundamental a regularidade de participação nos ensaios para o desenvolvimento artístico.

Qual a importância dos coros para formação musical, social, etc?

A natureza de um coro é a coletividade. Antes ainda de ser um simples agrupamento de pessoas cantoras, é um conjunto vivo, que se move com propósitos comuns. Certamente, o principal objetivo dessa atividade é reunir-se para realizar música coletiva através da voz. Porém, há elementos presentes na prática coral tão importantes quanto cantar: ouvir o próximo (procurar timbrar a voz com o naipe em que canta); ser um coralista proativo, buscando compreender as necessidades de todo o grupo e colaborar de modo abrangente, não somente em relação a si; e ser consciente de que fazer música é dedicar-se ao máximo em prol da excelência artística.

Tais aspectos colaboram, sem dúvida, para a convivência saudável, sensibilidade e integração com o semelhante, assim como o estímulo criativo e inteligente dos cantores. Como relatei anteriormente, o elemento que transforma um grupo de músicos em um coro é o uso musical da voz, respiração adequada e técnica para diferenciar a fala do canto.  Individualmente, possuímos identidade vocal, que é única e intransferível. E, no coro, devemos somar uma voz à outra, misturar essas qualidades. Não é somente a reunião de interessados em cantar que constrói um coro. É necessário árduo empenho em prol de conquistar qualidade artística, ensaios musicais regulares (haja o feriado que houver) e empenho dos participantes. Tanto regente quanto cantores.

Além da imersão em uma experiência vocal corpórea, cantar coletivamente exige precisão para escutar a si próprio e os cantores ao redor, treino de técnica vocal e integração total com o regente... Ao executar tantas simultaneidades, adquirimos qualidade de concentração, integração artística, refinamento auditivo e musicalidade. Qualquer pessoa pode e deve cantar. Mesmo sem qualquer experiência musical anterior.

Poderia citar alguns coros de referência em São Paulo ou no país? 

Há inúmeros coros de qualidade. Tanto amadores quanto profissionais. Começando pelos não profissionais: Collegium Musicum de São Paulo, CoralUsp, Coro da Cultura Inglesa , Coro da Casa Dona Yayá, todos os Coros do SESC , Coros do Projeto Guri em todo o território nacional , Coro da Fundação Palmares na Bahia – mantida por Carlinhos Brown, Canarinhos Cantores, Associação Coral da Cidade de São Paulo, Coro Luther King, uma lista grande.

Profissionais e semiprofissionais: Coro da Osesp, Coro Lírico Municipal de São Paulo, Coral Paulistano, Coro Jovem da Emesp, Coro da Academia da Osesp, Coro da ECA, Coro de Câmara da UNESP, Coro de Câmara da Unicamp, Coro Jovem de São José dos Campos, Coro da Universidade de Música da Paraíba (FAP), Coro DO Conservatório Pernambucano de Música, Coro da Universidade Federal de Música do Rio Grande do Sul e Coro da Universidade de Música do Rio de Janeiro.

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