Bukowski não seria o mesmo sem a música clássica

O desconstrutor do sonho americano se entregou aos estímulos de Mahler, Brahms e Beethoven

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Em "As consequências de uma longa carta de rejeição", Bukowski compara o corpo de uma mulher à Sexta Sinfonia de TchaikovskyCharles Bukowski dedicou sua vida a, vamos dizer assim, desconstruir o sonho americano. Foi buscar os extremos e as sensações mais profundas das relações humanas (e toda sua beleza) entregando-se ao alcoolismo, ao sexo inconsequente, às prostitutas, aos pobres, aos amores falidos, às mães solteiras, aos operários explorados em fábricas deploráveis, aos empregos de merda, aos jogos de azar, às brigas de bar, aos excluídos, aos feios, às feias, aos gordos colegiais ignorados por seus colegas de classe, aos vagabundos, aos mendigos, aos perdedores. E escreveu páginas e mais páginas de sua emocionante literatura marginal sob a sonoridade potente (e também de extremos) da mais refinada das músicas: a música clássica.

"A instrução básica moderna, por razões desconhecidas, ao menos para mim, considera plausível introduzir Beethoven às almas de oito anos. Alguém uma vez fez a pergunta, os compositores são seres humanos"?

O resultado é que Mahler, Brahms, Beethoven, são uma constante em sua obra. Os mestres da música constituem o tempero saboroso a quebrar a acidez dos seus contos. Sempre com ironias inteligentes e sacadas geniais. Em "As consequências de uma longa carta de rejeição", comparou o corpo de uma mulher, Millie, à Sexta Sinfonia de Tchaikovsky. Em "O outro", após a briga com uma namorada, Bukowski sai dirigindo pelas ruas quando é provocado para um "racha". As loucuras na direção são narradas enquanto Mahler toca na rádio. Até que os dois motoristas resolvem parar num beco para resolver suas diferenças no braço, na porrada. Buk leva uma surra e desmaia. Ao acordar, volta para o carro e liga o rádio novamente. Tocava Réquiem em Ré Menor, de Mozart. Wolfgang encerra também "Treinamento básico": "Eu queria resistir a todas as armadilhas, para morrer junto à máquina de escrever, uma garrafa de vinho à minha esquerda e o rádio tocando, quem sabe, Mozart, à direita".

A crônica "Difícil sem música" traz uma narrativa impensável. Conta o dia em que Larry chega da rua ao velho hotel onde mora por algum tempo e é avisado pela senhoria no saguão que duas freiras o aguardam em seu quarto. Elas haviam respondido ao anúncio que Larry publicou nos classificados de um jornal. Ele precisava vender sua vitrola e alguns LPs. As freiras se surpreenderam ao descobrir que Larry tinha uma bela coleção de música clássica e pensaram que tudo aquilo poderia ser muito bom nas aulas que lecionavam. Em torno de um inusitado diálogo sobre música clássica, num quarto de hotel barato, se desenrola o drama de um homem solitário e de duas freiras em busca de algo útil para o seu convento. Disse Larry: "A instrução básica moderna, por razões desconhecidas, ao menos para mim, considera plausível introduzir Beethoven às almas de oito anos. Alguém uma vez fez a pergunta, os compositores são seres humanos? Bem, eu não sei, mas o que sei é que os sons que saíam do toca-discos do meu professor na terceira série não eram, para mim, sons humanos, sons que de modo algum guardavam qualquer relação com a vida real e com os seres vivos, com o mar ou com os campos de beisebol".

A propósito, todos estes estão compilados no livro "Pedaços de um caderno manchado de vinho".

A intensidade dessas relações inesperadas, improváveis, banhada por linhas imaginativas envolvendo o poder da música clássica, estende-se por praticamente toda a obra bukowskiana. Alcançou não apenas a prosa do autor. Abraçou também a poesia. Merecia tese de mestrado. São incontáveis textos. Seu melhor livro de poemas, "Love is a Dog From Hell", tem passagens brilhantes. Pra começar, é a casa de "Bluebird", um de seus poemas mais famosos. Que não fala de música, mas precisa ser citado aqui e em qualquer lugar. There is a bluebird in my heart... Os musicais são "Chopin Bukowski", onde claramente ele se confunde com o mestre polonês, e "Bee's 5th", carregado de sarcasmo sob o gancho da Quinta Sinfonia de Beethoven. Já o poema "sweet music" segue assim:

it beats love because there aren't any
wounds: in the morning
she turns on the radio, Brahms or Ives
or Stravinsky or Mozart. she boils the
eggs counting the seconds out loud: 56,
57, 58... she peels the eggs, brings
them to me in bed. after breakfast it's
the same chair and listen to the class-
ical music. she's on her first glass of
scotch and her third cigarette. I tell
her I must go to the racetrack. she's
been here about 2 nights and 2 days. "when
will I see you again?" I ask. she
suggests that might be up to me. I
nod and Mozart plays.

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