Moozyca foi dançar o forró da capital nacional do pé de serra

Dunas de Itaúnas atrai milhares de pessoas pela tradição musical e natureza paradisíaca

A história desse rincão é meio parecida com Pompeia, na Itália, com a diferença de que, aqui nas terras tupiniquins, Deus não ordenou o Vesúvio a cobrir o chão com lavas escaldantes

O começo do ano em Itaúnas é punk, apesar de a vila capixaba ser conhecida como a capital do forró pé de serra. Com muita catuaba e um pouco de boa vontade, você pode ficar sem dormir uns dois dias, saindo das casas de forró, vendo o sol nascer nas lindas dunas, até dar sede para pedir uma caipirinha na praia.

Ao ver o sol se por nas dunas do vilarejo, já meio embriagado e salgado do mar, você vê uma caravana de músicos passando e tocando o Baião, de Luiz Gonzaga. O calor é forte e a imagem daquele Saara te faz associar as levadas da música com os versos da poesia “Branco e Vermelho”, de Camilo Pesanha (Como um deserto imenso / Branco deserto imenso / Resplandecente e imenso / Fez-se em redor de mim / Todo o meu ser, suspenso / Não sinto já, não penso / Pairo na luz, suspenso… / Que delícia sem fim!)

Antigo Daí alguém te fala, em uma das pausas da zabumba, que, debaixo das dunas onde você está, fica escondida a antiga vila, que foi soterrada entre os anos 50 e 70. Desde então, o vilarejo foi transferido para o outro lado do rio Itaúnas. A história desse rincão é meio parecida com Pompeia, na Itália, com a diferença de que, aqui nas terras tupiniquins, Deus não ordenou o Vesúvio a cobrir o chão com lavas escaldantes, mas pediu à Iemanjá para soprar o seu vento de areia sobre a vila profana.

Sim, Itaúnas é uma vila profana ao meio de um estado nominalmente católico, o Espírito Santo. Lá, a turma gosta de ralar a cocha até o sol nascer, beber catuaba e cachaça e se perder no “nhec nhec” da sanfona. Lá, você verá seus amigos fazerem coisas inimagináveis! Já a estrofe de Tim Maia “não vale homem com homem e nem mulher com mulher” não se aplica a esse lugar – meninas dançam com meninas esperando os gracejos dos rapazes, enquanto alguns deles somem no escurinho dos muros.Dunas que cobrem antiga cidade

O que não vale mesmo em Itaúnas é ficar parado. No Buraco do Tatu, uma das casas de forró da vila, encontrei um dançarino que disse: “Você é de São Paulo? Já dá para ver, porque está aí de canto. Veja só, ali é tudo capixaba”, disse o pé de valsa apontando para o lado direito da festa, onde estavam os melhores dançarinos. “Aqui em Itaúnas, não tem essa de ser bonitinho, não. Quem não dança não é macho”, completou sorrindo.

Para o administrador paulista, Ewerton Romeiro Simonelli, que conheceu Itaúnas neste verão, a vila respira forró. “Por onde a gente anda se ouve forró. É esse astral que atrai forrozeiros de todos os lugares do Brasil. Quando a noite chega, aí é que Itaúnas mostra por que é considerada a capital do forró”, afirma.Rio Itaúnas

Na opinião do turista, as duas principais casas de forró do vilarejo, Buraco do Tatu e Bar do Forró, além de sempre ter atrações excelentes, são um prato cheio pra quem gosta de dançar. “São pessoas de diversos lugares, com estilos e níveis de dança de todos os tipos. Só fica parado quem quer. A dica é não ter vergonha e se jogar na pista. Sempre tem alguém esperando um convite pra dançar”.

Ruas de terra e forró

A vila no norte do Espírito Santo, que é um distrito do município de Conceição da Barra (250 km ao norte da capital Vitória), ainda é uma reserva rústica da natureza, com um pequeno centro de ruas de terra. A vila abrange o Parque Estatual de Itaúnas, considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, onde diferentes ecossistemas interagem entre si, como mangues, restingas, dunas e floresta.Forró de Itaúnas

Além da riqueza natural, o lugar é conhecido pelo Festival Nacional Forró de Itaúnas (FENFIT), que ocorre anualmente em julho e revela novos talentos por meio de premiação em dinheiro e gravação de CDs. O festival surgiu em 2001, como incremento ao movimento cultural do forró pé de serra, surgido na década de 80. Ao longo dos anos, a vila tornou-se palco para renomados grupos, como Rastapé, Trio Virgulino, Trio Nordestino, os três do Nordeste, Trio Juazeiro, e Trio Sabiá.

Além do Buraco do Tatu, outra casa tradicional é o Bar do Forró, criado em 1989. Segundo o próprio estabelecimento, na época, o comércio era quase inexistente e havia apenas alguns bailes da comunidade. Foi então que os donos do restaurante e do bar descobriram o sanfoneiro Luiz Geraldino na cidade próxima de São Mateus, que começou a se apresentar em Itaúnas e agitou a cena musical da região.

O forró pé de serra agradou ao público paulista, que levou a moda para a Pauliceia como forró universitário. Os visitantes começaram a surgir cada vez mais, atraídos pela música e pelas belezas naturais do vilarejo.



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