Pesquisadora italiana fala ao Moozyca: "música triste faz bem"

Saiba porque composições melancólicas estão relacionadas a nostalgia, reconforto e prazer

Status: sentindo-se feliz com os noturnos de Chopin e as suítes de Bach para violonceloHá pouco tempo, vi uma notinha num site alemão com o título “Música triste faz bem”. Achei o tema um tanto curioso, mesmo porque adoro um som meio melancólico e tenho a sensação de que esse tipo de música me faz um bem danado. Parte das músicas que costumo tocar possui uma sonoridade nada alegre, num primeiro momento. Mas, depois de tocá-las, uma a uma, levanto do meu banquinho com a alma lavada, com uma sensação realmente boa. É uma coisa muito louca que só acontece com esse tipo de música - bem triste!

A música triste pode ter efeitos reconfortantes e calmantes. Ela pode ajudar a lidar com as emoções negativas, por exemplo, por meio da reavaliação cognitiva dos sentimentos e experiências negativas

Então, em uma manhã dessas, fiquei meditando no chuveiro sobre o “porquê” desse efeito mágico da música triste. Depois do banho, liguei o computador para pesquisar mais sobre o tema que havia lido no site alemão. Tratava-se de um estudo recente feito por dois pesquisadores: a italiana Liila Taruffi; e o alemão Stefan Koelsch - da Universidade Livre de Berlim. O nome da pesquisa é “The Paradox of Music-Evoked Sadness” (O paradoxo da tristeza evocada pela música). Os dois entrevistaram 772 pessoas do mundo todo para saber com que frequência e em quais situações costumam ouvir músicas tristes e quais os sentimentos desencadeados.

Ao passo que me inteirava mais sobre o tema, ouvindo os noturnos de Chopin ou as suítes de Bach para violoncelo, achava o tema cada vez mais interessante. Foi quando resolvi entrar em contato com a autora do projeto, Liila Taruffi, que foi um amor de pessoa e compartilhou com o Moozyca o seu conhecimento sobre o assunto: a música triste é incrível - libera emoções complexas e positivas, como paz de espírito, ternura, docilidade, nostalgia, transcendência e encantamento.

Confira abaixo a entrevista com Liila Taruffi e algumas músicas tristes (para nossa alegria)!

Liila Taruffi: Por que as pessoas se sentem bem quando ouvem música triste?

As pessoas podem ter prazer ao ouvir música triste por vários motivos. Nosso estudo destacou que a música triste pode ter efeitos reconfortantes e calmantes. Ela pode ajudar a lidar com as emoções negativas, por exemplo, por meio da reavaliação cognitiva dos sentimentos e experiências negativas. Ela também pode melhorar os processos imaginativos. Por fim, a música triste pode ser apreciada como um sentimento puro, por não ter uma causa real na vida cotidiana.

Em quais situações as pessoas gostam de ouvir música triste?

Os participantes da pesquisa relataram ouvir música triste em momentos de angústia, por causa de um relacionamento perdido ou quando as pessoas se sentem solitárias. Os participantes também relataram que o gosto por música triste é significativamente maior quando estão tristes, se comparado a um estado emocional positivo. Os resultados sugerem que, para a maioria das pessoas, o envolvimento com a música triste está relacionado ao seu potencial de regular o humor e as emoções negativas, bem como fornecer consolo e reconforto.

O que torna uma música triste ou alegre?

A música pode ser definida "alegre" ou "triste" de acordo com as suas características musicais e acústicas. Por exemplo, na cultura ocidental, uma música triste provavelmente terá ritmo lento, modo menor, baixo nível de ruído, voz mais grave, pequenos intervalos, legato, irregularidades microestruturais, entre outras características. No entanto, é importante entender que sentimos tristeza ou felicidade não necessariamente por que ouvimos uma música triste ou feliz. A evocação da emoção por meio da música é muito mais complexa do que isso e muitos outros fatores (individuais e contextuais) precisam ser levados em conta.

Qual o papel da nostalgia no efeito da música triste?

A nostalgia é a emoção mais frequentemente evocada pela música triste. Isso sugere que muitas pessoas evocam memórias de eventos passados ao ouvir música triste. Isso também foi confirmado pelo fato de que muitas pessoas relataram usar a música triste para pensar no passado. Essa foi a nossa constatação: há uma grande relação entre nostalgia, memória e música triste.

Como você iniciou o projeto e quais foram as suas motivações?

A primeira vez que me deparei com a questão de fruição da emoção negativa foi no meu curso de graduação em Estética. O apelo da música triste sempre foi uma questão crucial na estética, desde a teoria da tragédia de Aristóteles. A partir de então, desenvolvi o interesse pelo tema, baseada na minha experiência pessoal, e comecei a observar a minha relação com a música no dia a dia. Eu acho que a investigação dos mecanismos psicológicos ao se ouvir música triste tem implicações importantes, por exemplo, para aprendermos a usá-la efetivamente como uma ferramenta na musicoterapia.

Poderia dar alguns exemplos de músicas tristes?

Vou citar alguns exemplos mais recorrentes de músicas tristes mencionadas pelos participantes do estudo. São elas: “Hurt”, de Johnny Cash; "Moonlight Sonata", de Beethoven; "Adagio for Strings Op.11", de Samuel Barber; "Adagio in G minor", de Tomaso Albinoni; "Gymnopédie No. 1", de Erik Satie; "Someone Like You", de Adele; e "The Heart Asks Pleasure First" (The Piano OST), de Michael Nyman, e "Exit Music (For a Film)", do Radiohead. Muitas pessoas da Ásia também fizeram menção à música clássica "Moon reflected in the second spring" de Ah Bing.

Confira abaixo as sete músicas tristes sugeridas por Liila Taruffi (a alma chega chóra).

 1 - “Moonlight Sonata", de Beethoven

2 - "Adagio for Strings Op.11", de Samuel Barber

3 - "Adagio in G minor", de Tomaso Albinoni

4 – "Gymnopédie No. 1", de Erik Satie

5 - "Exit Music (For a Film)", do Radiohead

6 - “Hurt”, de Johny Cash

7 - "The Heart Asks Pleasure First" (The Piano OST), de Michael Nyman

 

 

 

Inscreva-se no Moozyca

Leia também

Cantora alemã Dota fala sobre sua relação com a música brasileira e o Nordeste

De cachorra à poderosa: o vestuário do funk na periferia do Rio

"Artista tem que dar murro em ponta de faca até aprender"

Moozyca foi dançar o forró da capital nacional do pé de serra

Como a música fala sobre a epidemia de ebola?

O baile jamaicano-tupiniquim da OBMJ

Estreia hoje documentário sobre obra do bandolinista Octávio Dutra

O guitarrista mais rápido do oeste


Inscreva-se no Moozyca