O guitarrista mais rápido do oeste

Filinto Fil fala sobre seu fascínio por filmes de Spaguetti Western, que dão o tom de sua obra

Você entra no metrô, aperta o play no seu celular e em poucos segundos está ouvindo uma música que te lembra um filme de bang bang. O tempo simplesmente parece parar e você enxerga uma bola de feno rolando à sua frente.

Essa sensação foi verdadeira, quando conheci o trabalho de Filinto Fil, guitarrista brasileiro aficionado em Spaguetti Western, aquelas produções de filmes de faroeste italianas que ficaram conhecidas  entre 1964 e 1978.

Recentemente, lançou a música "Poker of Death" e está em fase de finalização do seu segundo disco, Fort Bravo. A faixa mostra um amadurecimento musical de Fil: "Hoje, sei melhor como timbrar e gravar os instrumentos para soar como na época em que se passam os filmes. Fiquei bastante satisfeito", afirma.

Quando criança, no final dos anos 1980, eu assisti a muitos filmes de faroeste (...)  Quando fui lançar meu o disco solo, tive a ideia de unir a estética e a sonoridade desses filmes e montei o Fil and the Guitar Gun

O músico ficou conhecido na cena nacional por ter sido o guitarrista da extinta Borderlinerz - consagrada e queridinha banda de rock da cena paulistana. O seu primeiro trabalho solo foi o Living in The Old West, lançado em 2013, e já bem no estilo tarantiniano. Assim como o primeiro disco, Fort Bravo também tem forte influência dos filmes italianos de faroeste dos anos 1960 e 1970, além da estética de seus personagens e trilhas sonoras.

O Moozyca entrevistou Filinto Fil, que se apresenta sábado (8/8) no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Conheça mais sobre seu trabalho e a cultura Spaguetti Western.

Moozyca: No momento, você está finalizando seu segundo disco, intitulado “Fort Bravo”. Como está o processo de produção do álbum?

Filinto Fil: O disco já está todo gravado, estamos finalizando a mixagem para partir para a etapa final, que é a masterização e a prensagem dos CD´s.

 Filinto Fil tocou na Borderlinerz de 2005 a 2009Como foi tocar como guitarrista da extinta Borderlinerz, bastante conhecida na cena rock paulistana?

Foi uma experiência muito legal. Toquei no Borderlinerz do final de 2005 até o final de 2009. Nessa época, em São Paulo, havia uma cena muito legal de rock - tanto de bandas como de lugares para se tocar.  Fiz o tour do disco "O Simples e Complexo" e gravei e compus o disco "A Verdade sobre a Mentira", de 2008. Foram muitos shows por todo o país, além de participações em programas de TV, internet e alguns clipes.

O seu primeiro álbum, "Living in the Old West", foi lançado em 2013, sendo mixado por Clive Mund. Como foi produzir esse trabalho?

Antes de entrar em definitivo no estúdio, eu já havia trabalhado bastante na pré-produção do disco. O mesmo ocorreu com o novo disco, "Fort Bravo". Assim, quando entro em definitivo no estúdio, já sei muito bem aquilo que busco, com os arranjos todos definidos, timbres e sonoridades.  O processo de gravação foi bastante tranquilo, basicamente reproduzi a pré-produção, mas com uma qualidade melhor, pois faço a pré-produção em casa mesmo no meu home studio.  O disco foi mixado pelo Clive e masterizado pelo Rodrigo Sanches.

De onde surgiu o seu interesse pela cultura Western? Qual a sua relação com a cultura norte-americana e italiana?

Quando criança, no final dos anos 1980, eu assisti a muitos filmes de faroeste na TV Record, que exibia - na sessão chamada "Bang Bang Italiana" - os filmes que foram produzidos na Itália nos anos 1960 e 1970.  Quando fui lançar meu disco solo, tive a ideia de unir a estética e a sonoridade desses filmes e montei o Fil and the Guitar Gun. Já em relação às produções norte-americanas, confesso que não me fascinam tanto. Gosto mesmo das produções italianas, que eram feitas com baixo orçamento, os cowboys são maus, sujos e com roupas amassadas. As imagens que chegavam aqui eram desbotadas e com dublagem de péssima qualidade, o que deixava os filmes ainda mais legais de assistir. Mas curto alguns filmes clássicos do cinema norte-americano, como o filme "Shane" (no Brasil, "Os Brutos Também Amam”) sobre o qual fiz uma música para o primeiro disco.

O que é Spaghetti Western? Como esse estilo surge no cinema?

Produções norte-americanas não me fascinam tanto. Gosto mesmo das produções italianas, que eram feitas com baixo orçamento, os cowboys são maus, sujos e com roupas amassadas.

Spaguetti Western foi como as produções de filmes de faroeste italianos ficaram conhecidas. Entre 1964 e 1978, foram produzidos mais de 200 filmes do gênero na Itália, com as filmagens na sua grande maioria feitas no deserto de Almeria, na Espanha. Spaguetti Western não é um estilo musical e sim um gênero cinematográfico, que, a partir das produções dos filmes, passou a ganhar uma sonoridade própria com as composições das trilhas.

Quais os filmes clássicos de Spaghetti Western? Quais as características desses filmes?

O filme que marca o início do Spaguetti Western é "Por um punhado de Dolares", de 1964, do diretor Sergio Leone. Embora este não tenha sido o primeiro faroeste Italiano a ser produzido, foi o primeiro a ter distribuição internacional e sucesso no exterior, o que desencadeou a intensa produção italiana. Entre as características, podemos citar o baixo orçamento das produções, os cowboys são mais violentos, muitas vezes confundindo o mocinho com o vilão. São sujos com barba a fazer e se vestem com visual muito mais agressivo do que os norte-americanos. A maneira como eram filmados, com excessivo uso de closes, cenas fechadas e enquadramentos próprios, além da sonoridade desenvolvida nas trilhas. Existem vários clássicos e personagens que ficaram muito conhecidos, como os filmes o “Dolar Furado”, com o ator Giuliano Gemma, “Django”, “Sartana”, “Trinity”, “Durango” e muitos outros.

Como a música marca esse estilo cinematográfico?

Marca por ser uma música muito sensorial, que faz uso de elementos da natureza e animais, trilhas compostas por maestros que misturam música clássica e indígena.

Poderia citar alguns compositores das trilhas sonoras de Spaghetti Western?

Foram inúmeros o compositores, mas podemos destacar Ennio Morricone, Luis Bacalov e Francesco de Masi, que são os meus favoritos.

Qual foi a repercussão do Spaghetti Western no Brasil?

Essas produções italianas dos anos 60 e 70 chegaram por aqui só nos anos 1980, com suas exibições na TV Record, na sessão Bang Bang à Italiana, o que fez com que esses filmes, personagens e atores se tornassem muito populares por aqui até hoje.

É verdade que um dos cowboys mais icônicos dos faroestes italianos era de nacionalidade brasileira?

Sim, Luis Antonio de Teffé, que ficou conhecido como Anthony Steffen, atuou em inúmeros filmes como protagonista. Entre eles: “Django”, “Ringo”, “Durango”, “Killer Kid” e etc. Morreu no Rio de Janeiro em 2004.

Qual a obra mais importante do estilo? A Trilogia dos dólares?

Sim, pelo fato de o primeiro filme da trilogia, "Por um Punhado de Dolares", ser considerado o marco oficial e o último filme, "Três Homens em Conflito", ter atingido o primor como produção e estética. Na minha opinião, foi o filme que alcançou a perfeição, se é que podemos assim dizer. Acho impecável.

Você criou um blog sobre cultura Western. Qual foi sua motivação?

Minha motivação foi me aproximar mais das pessoas e fãs de faroeste e poder compartilhar com elas a minha música. Vale ressaltar que escrevo no blog na qualidade de fã dos filmes e não como especialista. Divido o meu ponto de vista, gostos e opinião de fã.

Fil and the Guitar Gun @ Jardim Secreto
Data: 08/08/2015 (sábado)
Horário: das 12h às 20h
Endereço: Museu da Imagem e Som (Avenida Europa, 158 - Jardim Europa)
Ingresso: Grátis

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