O cientista da vanguarda baiana

Russo Passapusso é cobaia e cientista na experiência da música

Em Salvador, o cantor entrou em contato com o rap, o reggae e a cultura sound system jamaicana (Foto: Fábio Bitão) Ao meio de uma cozinha percussiva apimentada, surge uma voz firme, mas suave, levemente rouca, mas bem em cima da afinação. Trata-se da interpretação de Russo Passapusso para a música “Batuque”, atribuído ao Quilombo dos Palmares, do século XVII. Esse é um dos primeiros temas de candomblé lançados em disco, de deixar o coração saindo pela boca.

Além de “Batuque”, as músicas “Babaô Miloquê” e “Cala Boca Menino” fecham a lista da primeira interpretação de Russo para um projeto não autoral. Nesse caso, o trabalho foi feito para o álbum Goma-Laca - Afrobrasilidades em 78 Rpm, dirigido por Letieres Leite, considerado um dos melhores álbuns de 2014.

Mas o fato de ser a sua primeira atuação como intérprete não o faz menos experiente que outros músicos da nova geração da música brasileira. Há dez anos na estrada, Russo Passapusso é um dos expoentes da vanguarda baiana. Nascido em Feira de Santana, foi em Salvador que entrou em contato com o rap, o reggae e a cultura sound system jamaicana, gêneros que o influenciaram no início da carreira.

A presença da música na minha vida tem sido mutante, os momentos se misturam muito e posso perceber que, por mais que eu não esteja concentrado na poesia, ela acontece, se move de forma cada vez mais independente.

Integrado ao coletivo Ministereo Público Sistema de Som, que ocupa diversos espaços da cidade com festas e intervenções sonoras, começou a movimentar uma cena alternativa em Salvador e, com isso, conquistou um público grande e fiel. E outros projetos não lhe faltaram nesses dez anos – Russo também faz parte das experimentações do BaianaSystem e do Bemba Trio Dubstereo.

Roosevelt, como se chama de verdade, passou a ser chamado de ‘Russo’ porque, na Bahia, havia uma dificuldade em se pronunciar o nome original. “'Passapusso tem relação com o ritmo cardíaco e com a superação de passar a pulso pelas adversidades”, definiu o próprio artista.

O que parece é que o nome artístico ‘Russo Passapusso’ mostra um pouco do que o baiano representa como músico: diferente, forte e sonoro. É assim que segue, com muita liberdade, em busca de uma sonoridade mutante, sentindo-se, ao mesmo tempo, cobaia e cientista, quando o assunto é música.

Leia abaixo a entrevista de Russo Passapusso para o Moozyca.

Hoje temos um grupo experimental, somos cobaias e cientistas nessa experiência gratificanteMoozyca: Depois de 10 anos de carreira, você lançou o seu primeiro disco solo (Paraíso da Miragem). Como foi fazer esse trabalho com Curumin, Zé Nigro e Lucas Martins?

Russo Passapusso: Foi um processo de criação com muita liberdade, produção espontânea. Tenho boas lembranças desse tempo de convivência.  A minha relação com Curuma é de muita afinidade e compreensão e, logo que ele me apresentou os caras, percebi que o clima era muito propício pra viver música.

O álbum traz letras que remetem à sua história de vida. Algumas faixas como “Autodidata”, “Anjo” e “Sapato” seriam alguns exemplos?

Também. Esse disco tem muitas imagens, muitos flashbacks. O disco me ajudou a compreender melhor o que passei em alguns momentos muito importantes da minha vida.

O álbum marca uma fase mais introspectiva e poética?

Acho que não foi só uma fase. A presença da música na minha vida tem sido mutante, os momentos se misturam muito e posso perceber que, por mais que eu não esteja concentrado na poesia, ela acontece, se move de forma cada vez mais independente. E assim, quando a mensagem vem, não precisa da minha direção, nem aprovação para que se transforme em música. Alguns momentos pedem urgência e a música grita como em "Remédio". Em outros, a força não é tão imediata, mas não deixa de ser forte, como foi na música “Relógio”.

Um dos álbuns brasileiros mais fantásticos de 2014 foi o Goma-Laca Afrobrasilidades em 78 RPM. O que você achou da experiência e do resultado do projeto?

Goma Laca é um projeto daqueles em que alinhamos o comportamento musical diante de relíquias musicais. Esse projeto me ensinou muito sobre como interpretar músicas. Não tinha participado de nada assim até surgir esse convite de Ronaldo Evangelista e do mestre Lettierres. Gostaria muito de ver esse disco em vinil. É um sonho meu, faço votos pra que se realize.

A faixa “Batuque”, que você canta, é atribuída ao Quilombo dos Palmares, do século XVII. Já “Babaô Miloquê” é de Josué de Barros, dos anos 1930. Como foi reencarnar essas pedradas?

Eu não tinha feito nenhum trabalho de intérprete ainda, foi o meu primeiro. Foi uma honra receber esse convite, mas só aceitei mesmo quando ouvi as músicas. Essa música em especial [“Batuque”] tem o sentimento muito forte: o elo, a fé, a força. Cantando, eu incorporava a situação, foi um presente poder viver isso.

O BaianaSystem é considerado uma banda que marcou a nova música baiana. Falando como criador: o que é o projeto?

O Baiana também trabalha com as imagens. Experimentamos sons a partir dos gráficos de Filipe Cartaxo, acho que esse é nosso principal método de trabalho. E, quando não partimos dessa imagem, percebemos que ela vem se formando ao mesmo tempo. A permissão pra experimentar é nossa válvula de escape, assim não caímos na mesma formula, assim ficamos mais livres pra criar relações entre os ritmos.

Do ponto de vista “antropofágico”, o BaianaSystem é sincrético como os Novos Baianos, pois funde muitos elementos musicais...

Por meio do comportamento e suas relações com lugares da cidade e com os ritmos que ouvimos por aqui, em fusão com toda a influência da música que chega de fora. Hoje temos um grupo experimental, somos cobaias e cientistas nessa experiência gratificante.

Qual a sua relação com BNegão e Anelis Assumpção, que fizeram participação especial no Álbum Paraíso da Miragem?

Minha cabeça e meu coração, e vice-versa. Eu vivi para conhecer a Anelis e compreender que a música é fonte de vida, como a mulher é fonte de luz, e que temos que viver de verdade para cantar, tocar ou compor de verdade. Essa é minha relação com ela e a família dela.

BNegão trouxe mil possibilidades pra minha cabeça, me mostrou que não precisamos de rótulos. Ele me fez acreditar mais e mais no tambor, além de ser o cara que impulsionou tudo o que aconteceu e acontece pelas bandas de cá, desde o surgimento do Ministereo Público Sistema de Som, ao surgimento do Baiana System e as experimentações do Bemba Trio Dubstereo.

MZ: Como você avalia a cena da nova música brasileira no momento?

Vivemos um excelente momento na nossa música. Não paro de conhecer novas bandas que me inspiram e eu acredito que estamos numa crescente. Hoje, percebo que tudo é uma questão de pesquisa e direção. O Brasil é grande, há diferentes tipos de músicos desenvolvendo diferentes tipos de mercados pra suas produções. Sou otimista, mas também não posso deixar de citar as dificuldades de plantar nesses terrenos. O que acredito é que as dificuldades têm mostrado o valor dos que permanecem produzindo.

MZ: Você fez parte do coletivo Ministereo Público, que ocupa diversos espaços da cidade com festas e intervenções sonoras. O que esse projeto lhe trouxe?

O Ministereo é a raiz da questão, um sound system que me ensinou bem mais do que música – um grupo de amigos de lugares diferentes que alinharam suas vidas nas frequências do som, em prol da cultura do vinil, da aparelhagem, do grafite, da necessidade dos bairros periféricos de Salvador, de ter um lazer. Enfim, da alegria de ver pessoas ouvindo música.

Vivi um tempo maravilhoso. E essa força de trabalho musical continua viva e tenho certeza que muitos outros frutos sairão desse, que, pra mim, é o movimento autêntico da cultura do grave na Bahia.

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