Livro ou disco? O lado escuro da lua

“Qualquer cor que você goste. Qualquer cor que te faça bem, honey"

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“Qualquer cor que você goste. Qualquer cor que te faça bem, honey”

 

Roger Waters acordou suado. Rugiu como um leão. Pensou. Suspirou. Observou o quarto escuro, não totalmente escuro. Iluminado apenas por um feixe de luz multicolorido vindo do nada, refletido num triângulo de cristal perdido embaixo da cama. Levantou e saiu à caça de algo que não compreendia. Sentiu um lunático vibrando na cabeça, viu tijolos dourados em trilhas forradas de dinheiro, lançou versos de amor em todos nós e neles também, os outros lunáticos do caminho. Só parou quando o súbito eclipse o envolveu. Sentiu música brotar e soprar ao vento, outra estrada sem fim, caiu de joelhos num abraço forte no contrabaixo que pulsava os acordes mais graves. Fez-se a música.

O pequeno Nick Manson, que estava ali perto como quem não quer nada, ganhou força descomunal. Bateu com tanta força que retorceu os pratos de sua imensa bateria. Depois os retirou, os martelou incansavelmente de um lado para o outro, de cima para baixo, os dobrou e os vestiu numa armadura de lata, protegendo a retaguarda do bando que parecia seguir à sua frente.

Mas naquele mundo orgânico extrassensorial alguns sintetizadores ecoaram melodias estranhas, desconhecidas, incontrolavelmente destrinchadas nos teclados pelos dedos livres de Rick Wright, praticamente transformando-o num espantalho a expulsar demônios.

David Gilmour não. Este queria leveza e cores. “Qualquer cor que você goste. Qualquer cor que te faça bem, honey”, dizia. Como um solo de balé de um porco rosado flutuando sem direção. Como uma menina linda no campo a caminhar sem medo, a vencer ladeiras íngremes em balões coloridos e com truques da cartola mágica. Como os pelos felpudos de um coelho da cartola no país das maravilhas. Mas ainda assim a esconder o nebuloso e secreto desejo de conhecer o lado escuro da lua.

Não sei, não. Mas acho que seria por aí a abertura do meu livro sobre The Dark Side of The Moon, álbum clássico do Pink Floyd lançado em 1973. Uma descrição psicodélica da psicodélica composição do disco, escrito, dizem, para a trilha de Alice. Não importa. Um prato cheio para desbravar a incrível arte de compor, pesquisar um momento histórico da música, dos comportamentos sociais. Descobrir personagens e contos nunca ditos antes.

Digo isso porque lembrei que muito tempo atrás o blog Seattle Weekly’s Reverb lançou uma pergunta muito instigante. Que eu nunca tinha pensado antes. Que vem carregada de desafio, daqueles que você fica parado sem reação quando alguém te surpreende. Cuja dificuldade de ser respondida me deixou dias pensando comigo mesmo: se você pudesse escrever um livro sobre um disco, qual seria?

Fiquei com uma vontade enorme de escrever um livro (é o que me falta, pois já plantei árvore e fiz filhos). É uma ideia genial. Um livro sobre um disco. Um livro? Sobre um disco? Hã-hã. Isso mesmo. Que coisa perturbadora... E eu queria escrever tantos livros. Agora que amo tantos discos, por onde começarei?

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