"Artista tem que dar murro em ponta de faca até aprender"

Jards Macalé abre o coração e confessa paixão por Luiz Melodia

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"São só cinco minutinhos", argumentamos. Jards estava prestes a subir no palco do Sesc Pinheiros e bolava uma ideia com a rapaziada da Abayomy Afrobeat Orquestra no camarim. Ao ouvir nosso pedido, brincou exclamando: "mas cinco minutos? Pô, gente", e saiu sorrindo ao ver que estávamos com o Thomas - baterista da Abayomy, que o acompanharia naquele show.

De bem com a vida, Macalé diz para Thomas com seu jeito irreverente: "eu vou falar com eles (noiz do Moozyca) só porque você pediu. Eu gosto muito de você, você é um cara sensível, emotivo, mas tá tocando muito alto hoje. O que aconteceu com você?". Todos riem a caminho do camarim onde a entrevista logo acontecerá.

Uma hora antes, havíamos sido recebidos pelo Thomas para a entrevista com o Abayomy. Inicialmente, a única da noite. Enquanto preparávamos o equipamento para a gravação, eis que Jards Macalé entra no camarim com um moletom à la Fidel Castro e um andar de Ozzy Osbourne. Nós o cumprimentamos, ele retribui e, em seguida, começou a escolher a camisa que usaria na apresentação daquela noite. Ao ver aquela cena, não me contive e cantarolei a oportuna: “com que roupa eu vou?”, de Noel Rosa. Jards não se fez de rogado. Escolheu a camisa mais florida do cabide cantando comigo e depois seguiu para a passagem de som.

É claro que nós fomos bisbilhotar. Mas vocês vão me entender, não deu para segurar. Ali, no mesmo palco, Otto, Jards Macalé e parte da Abayomy Afrobeat Orquestra passavam o som para um auditório vazio. Genial!

Depois da passagem de som, tivemos um bate-papo incrível com o Abayomy que nos sugeriu uma conversa com Macalé. Conversamos com ele sobre carreira, o que é ser artista, Rio de Janeiro, Gilberto Gil e sua paixão pelo Luiz Meloda.

Veja como foi:

A arte é invenção; a arte é uma aventura; a arte é razão de viver. Você vive em estado poético o tempo inteiro. Aí não tem tempo pra essa coisa de banco, todas essas ralés, sabe?

Moozyca: São mais ou menos cinquenta anos desde que você começou, na época em que fez o primeiro show fora do Rio, no Teatro São Pedro e tudo mais…

Jards Macalé: [interrompe] Foi. Tá sabendo de tudo isso? Foi ele que contou (apontado para o batera do Abayomy). E aí...

MZ: Com essa trajetória toda, se você fosse fazer uma balanço da sua carreira, o que você diria? Que momento você está?

JM: Agora? Estou feliz. Arrumei uma banda maravilhosa, uma rapaziada que me ensina e espero que eles aprendam alguma coisa, é uma troca. Estou com uma mulher maravilhosa, uma gaúcha da qual eu fiquei noivo, com essa idade. E eu quero mesmo é casar. "O velho na porta da Colombo é um assombro sassaricando". Sou eu, um velhinho.

O que mais? Só tive prazer na vida. As porradas eu aprendi alguma coisa. O resto… vou morrer mesmo, todos nós vamos, então vai feliz, né bicho? Quantos anos eu vou viver? Mais setenta? Eu não vou consertar nem um terço das merdas que eu já fiz. Mas foi tudo bacana.

MZ: O que é ser um artista?

JM: Eu acho que o artista tem que dar murro em ponta de faca até aprender. Ou entorta a faca, ou corta a mão de vez. Porque a arte é invenção; a arte é uma aventura; a arte é razão de viver. Você vive em estado poético o tempo inteiro. Aí não tem tempo pra essa coisa de banco, todas essas ralés, sabe? Bancário, presidente da república, senado, câmara, porcaria… A gente está em outra vibe, essa vibe é que nos faz valer a pena, eu acho, a criação.

Tem cara que só destrói, pensa que está criando alguma coisa e avacalha tudo. Veja estes governantes de merda, não só no Brasil, como no mundo inteiro. Agora, o criador cria possibilidades para coisas mais benéficas, talvez… O que é o bem e o mal, né? Tem gente que pensa estar fazendo o bem, mas está fazendo um mal horroroso. E tem gente que pensa que está fazendo uma merda, mal, e está fazendo um bem. Aí é uma questão de você sacar qual dos dois é o seu caminho. E o meu caminho é o caminho do bem.

Estou sendo claro? Porque eu não quero dar uma de Gilberto Gil.

O que é o bem e o mal, né? Tem gente que pensa estar fazendo o bem, mas está fazendo um mal horroroso (...) Aí é uma questão de você sacar qual dos dois é o seu caminho. E o meu caminho é o caminho do bem. Estou sendo claro? Porque eu não quero dar uma de Gilberto Gil.

MZ: O que o Rio de Janeiro representa para sua música?

JM: Sou um carioca da gema. Sou da Tijuca. E depois, com quatro, cinco anos de idade, fui para Ipanema e ali fiquei no Bar 20, Posto 9, fui criado por ali… Até os vinte e tantos anos. Então, o carioca é um ser privilegiado. Ele pode ser um bundão, mas aquela paisagem faz qualquer um virar bundão. Aquele mar, as montanhas, aquela coisa, tudo… E ainda tem passarinho, tem até gambá atravessando a rua, é uma maravilha. O Rio de Janeiro já teve cobra sucuri na Avenida Brasil! Cara, é um negócio maravilhoso.


MZ: Como começou sua relação com Luiz Melodia?

JM: Nessa selva (Rio de Janeiro), eu me torno amigo de Waly Salomão, que sabia do Luiz Melodia. Estácio ali, Hélio Oiticica, Mangueira, Estácio, bum: Luiz Melodia. Aí, quando vi Luiz Melodia, a gente começou aquela conversa mole de carioca: passa lá em casa, não dá endereço. Me telefona, não dá o telefone. Então, um dia a gente se encontra e tal… Aí nessa conversa toda, o Melodia abre a boca e canta aquelas coisas que ele canta, compõe como compõe, e aquele timbre… Eu me apaixonei perdidamente por Luiz Melodia. Eu sou um amante do Luiz Melodia e ele nem sabe disso. Estou revelando agora: eu sou um amante do Luzi Melodia!


MZ: Como é ter o Abayomy como banda?

JM: Como é tocar com gays? Tocar com gays é uma das melhores coisas do mundo, porque um toca de vermelho, outro toca de verde, outro toca de azul, é um arco-íris. Um arco-íris de sons, um arco-íris de beleza. Tô brincando (risos). 

 

Veja abaixo a entrevista completa com Jards Macalé.

 

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